quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Diário de Bordo

Bem sem graça fica o barco sem as meninas.
Mas às vezes é preciso. Faz parte do plano ganhar experiência. Enfrentar alguns apuros, pra aprender a lidar com situações difíceis. E, acreditem, é bem melhor fazer isso sem um bebê a bordo.
Combinei com o Seu Alfredo, antigo "pai" do Guará, um encontro técnico para tirar algumas dúvidas, como subir no mastro para manutenção e montar a vela gennaker (uma grande vela de proa, que se usa para melhorar o rendimento do barco em ventos de través e popa (de lado e de trás).
Mas esse negócio de conciliar a vida na terra com a vida no mar, nem sempre dá certo. Conciliar a compra de passagens aéreas com a previsão do tempo é até possível, mas bem caro. Então a gente se programa e vê no que vai dar. Ao sabor do vento. Bem... não tinha vento. Choveu. Aí fiquei com o Seu Alfredo conversando no cockpit. Ele é uma ótima pessoa e também gosta muito do barco. Fez muitas invenções legais, e o que é mais legal ainda: registrou tudo, absolutamente tudo, no diário de bordo. Qualquer especialista em Gestão do Conhecimento ficaria "de cara" com o caderninho do Seu Alfredo. E isso faz toda a diferença. Enfim, não deu pra agora praticar. Mas já sei onde está escrito.
Depois da conversa, saí pra ancorar em frente ao cais principal de Paraty. E com a supernova de domingo, que indicou marés bem altas e bem baixas no mesmo dia, ancorei o Guará bem longe, ao lado de um outro barco maior. "Se ele não vai encalhar, eu também não vou!" - pensei.
Fui até o centro de Paraty, entrando pela barra com maré alta, no bote de apoio. É um barquinho bonitinho, inflável, pra quatro pessoas, amarelinho. Tem um motorzinho de 3HPs, suficiente pra finalidade de chegar na praia. Porque veleiro não chega. A quilha vai um metro e meio pra baixo. Amarrei o bote bem pertinho da Kombi. É, da Kombi do meu irmão. Ele tem um projeto muito legal, chamado kombinacomfoto, procurem no Facebook. Ele sai viajando pelo país afora fazendo oficinas de fotografia. Fez o maior sucesso no Paraty em Foco, evento que estava acontecendo. Esta cidadezinha simpática e acolhedora, mais uma vez, recebendo minha família. Amo muito.
Fiquei na Kombi até umas 22h trabalhando com o Felipe. Depois fui pegar o bote e pedi ajuda pra ele, pois o deixei sobre a calçada por causa dos outros barcos de passeio. São muitos! Paraty é cheinho deles. A maré estava bem baixa, a diferença pra maré alta foi de mais de um metro. Foi lindo ver as ruas enchendo d'água e, horas depois, esvaziando, depois enchendo tudo de novo. Muito lindo o movimento das águas. Lindo também foi o tombo que eu levei na rampa cheia de limo, na faina de recolocar o bote na água. Mas deu certo - rs. Saí então pelo rio Perequê-Açu, que passa pelo centro histórico, com a maré muito baixa. Não tinha calado nem pro bote. Fico imaginado o que as pessoas ficaram pensando ao me ver caminhando no meio do rio à noite puxando um bote amarelo.
Quando a profundidade permitiu, liguei o motor e fui em busca do Guará, no meio da escuridão. Aí veio mais uma aprendizagem importante: eu estava sem colete. Sem água. Sem rádio, nem telefone. Sem luz de navegação nenhuma, em meio a outros barcos maiores. O único meio de segurança era a chave do bote, que amarrei no tornozelo para o caso de cair na água. Um absurdo total. Nunca façam isso, por mais calmo que esteja o mar.
Enfim, cheguei ao Guará e tomei um delicioso banho quente, de canequinha, ali do convés mesmo, olhando pra igreja e agradecendo pela proteção. Por estar me sentindo em casa.
Já é domingo. Acordei cedo, ao raiar do sol, que apareceu. Liguei o rádio pra saber a hora, porque não tinha mais telefone. Esqueci de contar, mas teve uma hora que dei um passo em falso na calçada e caí no mar com ele. Se foi. Mais um...
O mar estava calmo, tinha uma leve aragem. Puxei a âncora e lembrei da água do mate esquentando. Desci rápido pra não deixar ferver. O gaúcho sabe o que é ferver a água do mate. Quando estava em frente ao fogão, vi aquele barco enorme vindo bem na minha cara pela vigia e... tum! Bateu. Puta merda. Subi correndo e vi o marujo do barco ao lado sair com uma baita cara de sono pra ver o que tinha acontecido. "Desculpe! Desculpe mesmo! Deixei solto" - disse à ele que, muito gentil, não conseguiu dizer nada e voltou a dormir. Acho que nem era brasileiro. Não vi a bandeira do barco. Mas não deixei ferver a água. Que mate delicioso!
Fui buscar o Felipe, que chegava com seus amigos. Enquanto esperava, lavei minha roupa imunda do tombo. Queria saber como era lavar roupa na água salgada. Achei muito bom, apesar dos calos nos dedos. Só que depois que seca, o sal fininho deixa ela bem esquisita... não enxaguei na água doce. Queria saber como era não usar água doce pra lavar roupa. Água é o nosso bem mais precioso, ainda mais em barco de cruzeiro. O Guará tem capacidade de 300litros. Dá pra passar até 20 dias a bordo, em três pessoas, racionando bem.
A velejada com o Felipe e seus amigos foi boa. Os amigos nunca tinham ido. E é muito legal sair com quem nunca foi, tudo é novidade. E ter a oportunidade de apresentar novidade pra quem já tem alguma vivência na vida é uma graça. Almoçamos macarrão com molho de tomate. O Felipe que fez, ficou delicioso.
Agora uma parte da família já conheceu o Guará. O vovô Vande, a vovó Ana, a titia Jerusa, a priminha Mariana, o titio Enrique e o titio Felipe. Fico muito feliz com isso.
Depois de colar umas fotos da família no painel sobre a mesa de navegação, voltamos e pegamos estrada. Lá ficou o Guará, aos cuidados do marinheiro Gilson. Que pessoa do bem. Lá se foi a Kombi verde camuflada com o motorista barbudo com cabelo dread e seus dois amigos, de volta pra Santa Catarina. Lá fui eu pra São José dos Campos, aguardando o embarque pra voltar ao encontro das meninas e do enorme trabalho que me aguardava. "Um dia vou ficar no mar de vez." - pensei de novo.
Obrigado pela paciência em ler. Espero que tenham se divertido.
Com carinho,
Thom.
O Guará fundeado em frente ao cais de Paraty.
26-09-15 1830 HMG   23º13.27'S   044º42.24'W


A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios na maré alta.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Família Schurmann - Expedição Oriente - 1 Ano!

Puxa vida...

Não parece, mas já faz um ano que a Família Schurmann deixou o porto de Itajaí/SC, para mais uma volta ao mundo.
Lembramos bem deste dia, estávamos lá. A Isadora, ainda na barriga da mamãe, conversou com a Formiga (Eloísa Schurmann), e trocaram votos de "bons ventos".
Queridos, obrigado por tantas inspirações. Que o nosso Deus, que sopra os ventos, cuide de cada um de vocês, do veleiro Kat e de toda a tripulação, do mar e da terra.

sábado, 19 de setembro de 2015

"Velejar é...

...transformar física em poesia."

O que sobra de uma viagem?

por Capitão Elio Somaschini - Veleiro Crapun


domingo, 13 de setembro de 2015

Dog house!?

Chamam esta cobertura de "dog house". O nome é bem sugestivo. Ela serve para proteger o timoneiro do vento, da chuva, e dos borrifos d'água, quando o bicho pega.
Mas... eu acho que tá mais é pra "baby house". Não acham!?
Fase I - Ambientação
21-06-15 1100 HMG     23º12.87'S    044º40.42'W

Vamos estudar!

É, filhinha...
Já que estamos a 1.262km de distância e a 1.200m de altitude longe do mar, o jeito é estudar...
Já aprendemos um pouco mais sobre a costa brasileira. Saímos de Porto Alegre/RS e chegamos a Vitória/ES.
Ainda faltam algumas milhas náuticas para completarmos nossa volta ao mundo. Vamos em frente, firmes no leme!
:-)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

E uma brisa leve...

...empurra o pequeno Biguá de volta ao porto, carregando um pai e dois filhos, depois de uma navegação de 4 milhas náuticas com pernoite a bordo.

 Veleiro Biguá -  27°35'22.43"S    048°26'20.60"W 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um dilema e tanto


Esse foi um dos momentos mais engraçados até aqui. Me peguei com os dois livros que estava lendo e pensei... "puxa vida".
Não tinha outro jeito. Só deu pra enfiar o bebê dentro do barco!



O primeiro dia dos pais

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

É impressionante...

...como diferentes combinações dos quatro elementos - Terra - Água - Ar - Fogo - promovem diferentes expressões e diferentes impressões.
Esta foi vivenciada ontem, ao impulso do elemento Ar, no veleiro Isadora. Um presente do Alto. O baixo percentual do elemento Água no cerrado (em torno de 15% de umidade relativa) faz com que o elemento Fogo apareça e desapareça, todos os dias, nesta época do ano, de uma forma ímpar. O elemento Terra assistia, de longe, o espetáculo protagonizado, nesta ótica, pelo veleiro Isadora.

Pôr do Sol no Lago Paranoá - Brasília/DF - Veleiro Isadora

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Uma Nova Tripulante


E eis que é anunciada a chegada de uma nova tripulante: bem-vinda a bordo, Isadora!
A lembrancinha foi projetada pelo papai e confeccionada mui carinhosamente pela mamãe. É réplica da mastreação e vela de um barco monotipo, classe Laser, muito parecido com o atual Isadora (classe Dingue).
E o mate!? Ah, o mate... este não falta. Está sempre a bordo. Quando a erva acaba, é sinal de que o porto de destino já está muito próximo :)