quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

O Veleiro

"O veleiro é de madeira, fibra, vento e mar. É também de espuma branca de água salgada cingindo o casco. Seu balanço me embala tal colo de mãe. Segue firme o veleiro. O mar não é singular, eles são muito: o mar estreito, o mar revolto, a calmaria, o mar profundo, o mar que vira mangue, que vira rio e vai dar na praia. Tudo cabe no mar e neste veleiro: o amor mais profundo e solidão extrema. No mar há destroços e muitos recomeços. Segue o veleiro, ao sabor dos ventos rumo ao porto desconhecido, tal como a vida, tal como o amor."

Mônica Carvalho, para @orca.sailing

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Relato de uma "Campereada"

Caro Diário de Bordo,

Hoje vamos relatar uma experiência muito legal e inesperada.

Ao longo destes anos, nos acostumamos a viajar sozinhos. Tomar um avião, um ônibus ou um carro, para chegar até o barco e navegarmos solitários para alguma ancoragem também solitária, na maioria das vezes. Até aqui, não havíamos nos juntado a nenhum outro barco ou flotilha, embora esta fosse uma vontade ainda não fomentada.

Neste espírito, depois de alguns anos sem ter que ir muito longe para embarcar, partimos. Primeiro, compramos um novo bote de apoio para o Guará, pois o inflável anterior abriu em quase todas as colas. Cogitamos reformá-lo, mas decidimos experimentar um bote rígido, feito em polietileno, mais durável e resistente (embora mais pesado).

Depois de ir à fábrica buscar o novo "integrante da família", instalamos um rack sobre o teto do carro e o amarramos ali. Ufa... que medo dele se soltar em algum quilômetro dos 750 que nos separavam do nosso veleiro. Confesso que estas experiências me preocupam. Mas como precisaríamos do pequeno bote para uma navegação mais segura em família, o amarramos bem e partimos, antes do nascer do sol do dia 03/01/2023, da nossa "base" no Canto dos Ganchos, em Governador Celso Ramos/SC.

Barco ou carro!? Se virar, navega!

Foi uma viagem bastante tranquila. Em alguns momentos, o vento apertava em sentido contrário e o comandante motorista aliviava o pé do acelerador, para não sair voando com o barco. Paramos na cidade de Sombrio/SC, onde fica uma bela gruta, onde oramos pedindo proteção para as nossas viagens por terra e por águas gaúchas.

Oração na gruta Furnas em Sombrio/SC

A viagem prosseguiu tranquila até os 100km finais, mais ou menos. Lá perto de Pelotas/RS, nosso destino, o vento apertou e, nos trechos não duplicados, grandes caminhões deslocavam perigosas massas de ar ascendentes que tentavam descolar o bote do teto do carro. Nestas ocasiões, diminuíamos ainda mais a velocidade, abrindo ambos os vidros, para que o vento passasse por dentro do carro e não por cima. Sim, estávamos velejando, administrando rajadas, em plena estrada! Até que chegamos ao Iate Clube de Pelotas, antes do pôr do sol, depois de um grande dia pelas estradas, entre orações e galinhas com farofa degustadas sob ninhos de periquitos à sombra de caminhões.

Entardecer no Iate Clube Pelotas

Os dias 04 e 05/01, respectivamente, estavam destinados à preparação do barco. Compras de provisões, revisão de equipamentos, teste do novo bote de apoio, integração com os velejadores do clube, entre outras tantas atividades que surgem quando estamos a bordo.
Logo na terça (03) quando chegamos, encontramos o Jorge, do trawler Casulo, que havia nos resgatado quando rumávamos a Porto Alegre e, por motivo de pane mecânica, sem vento nenhum, nos obrigamos a fundear na praia do Laranjal em Pelotas. Enquanto embarcava o rancho no Casulo, Jorge nos apresentou sua almiranta, a Vera, um amor em pessoa. Eles nos disseram que estariam zarpando no dia seguinte, quarta (04), juntamente com um grupo de outros 07 barcos, rumo ao Arroio Pavão, aproximadamente à meio caminho da derrota que havíamos traçado rumo à Ilha Grande, no Canal de São Gonçalo. Mui simpaticamente, nos convidaram a nos reunirmos a eles no "acampamento", se assim desejássemos. Agradecemos, mas não confirmamos, deixando então a decisão ao acaso.

O Canal de São Gonçalo e seus apêndices

Zarpamos na sexta-feira (06) às 06:30h rumo ao Arroio Pavão, com combustível, provisões e tempo para esticarmos até a Ilha Grande, se assim desejássemos. Teríamos pelo caminho algumas novidades: duas pontes sobre o Canal de São Gonçalo, sendo uma uma ferroviária (com vão central móvel operado por máquina), uma rodoviária (com vão central fixo suficiente para a passagem do mastro do nosso veleiro) e uma eclusa (espécie de elevador hidráulico utilizado por embarcações para transpor barragens). A ponte móvel opera diariamente das 8h às 18h, já a eclusa em três horários: às 9h, às 14h e às 17h.

O tempo de navegação entre a ponte férrea e a eclusa seria de aproximadamente 50min à nossa velocidade, de modo que precisaríamos cruzar a ponte bem próximo ao horário de início da operação. De acordo com o plano de navegação, teríamos vento (e consequente corrente) a favor em direção à ponte, de modo que chegar antes do horário seria um empecilho inconveniente (já que não teríamos freio!). Assim, saímos um pouco mais cedo, para não atrasar a passagem pela eclusa, porém controlando a velocidade, para não chegar cedo à ponte. Sendo assim, já próximos a ela, reduzimos máquina e fomos seguindo até chegarmos próximos à ponte às 8:00h. Chegando lá, chamamos no rádio uma vez, e nada. Duas vezes e... nada. Na terceira vez, responde o operador, dizendo que já havia nos avistado e que estava a caminho. Eram 08:05h! O "danado" (adjetivo carinhoso dirigido a quem inadvertidamente nos causa algum contratempo) devia estar com um rádio nas mãos, se atrasou e nos levou a dar duas voltas em 360 graus, para gastar tempo. Para quem viu, certamente foi um espetáculo a parte, ver um veleiro desfilando em círculos em pleno amanhecer, tal qual uma ave macho galanteando a fêmea para o acasalamento.

O vão central da ponte férrea antiga então se abre, lentamente, exclusivamente para nossa passagem, sem cobrar pedágio. Nos sentimos honrados e muito gratos, ao passo em que tentávamos adivinhar, olhando o tope do mastro, se já teríamos altura suficiente para nossa passagem. Redimiu-se então o operador, dando-nos pelo rádio a aguardada permissão, ao passo em que nos desejava uma ótima navegação. A almiranta agradece em retorno pelo rádio, muito feliz e simpática ao solícito "dorminhoco".

Passagem pela ponte férrea

Passados aproximadamente 45 minutos, alcançamos a eclusa. Lá deve-se ter cuidado para não atracar o barco entre o vento e a parede, para não danificar o costado. Pela direção do vento, calculamos que deveríamos amarrar o barco por boreste, mas na prática, precisamos amarrá-lo por bombordo. Que correria! Foi aquela confusão, trocar cabos e defensas tão rápido. Perdemos o ponto de amarração. No apuro, fomos "socorridos" por um barco pesqueiro que nos ofereceu gentilmente o costado para amarrarmos a contrabordo. Tudo safo.

Atracação na eclusa

O Canal de São Gonçalo é assim chamado por não ser um rio, uma vez que não possui nascente. Ele interliga naturalmente a Lagoa dos Patos à Lagoa Mirim e possui alguns afluentes, como o Rio Piratini e o Arroio Pavão, por exemplo. Em sua extensão, foi construída uma barragem para impedir que a água salgada do mar, por meio da Lagoa dos Patos, salgue os arrozais ao longo do Canal, além de possibilitar a captação de água potável para consumo humano. Sem dúvida, uma antiga e grande obra de engenharia.

Após uma bela navegada sobre a água doce do São Gonçalo, deslizando ao sabor do vento e totalmente à motor (pois precisávamos testar bem a máquina após a última manutenção) chegamos à "esquina" do Canal de São Gonçalo com o Arroio Pavão. Bem ali, avistamos a animada flotilha e seu acampamento, com seis barcos atracados com a proa à altura do barranco. Jamais havíamos visto uma atracação como aquela: os barcos são amarrados de proa às árvores ou arbustos e à contrabordo uns dos outros. O primeiro e o último barcos lançam longas espias também aos barrancos, mantendo todo o conjunto "estaqueado" e assim imóvel. Alguns barcos oferecem passagem aos demais, com pranchas colocadas em suas proas, conforme o desenho do barranco. Nosso veleiro, por orientação do amigo Jorge, atracou à bombordo do Casulo e a boreste do Vikings, do Seu Pedro, que com seus 70 anos de acampamentos e navegações, apelidou-nos carinhosamente de "Viajantes". Nosso embarque e desembarque foi então feito pelo Casulo, pois com nossa quilha de 1,65m, não alcançamos o barranco.

O Veleiro Guará, único entre os demais barcos e também entre os menores, chamou a atenção de todos que, admirados, queriam saber como havíamos chegado ali com aquele "barquinho". O feito rendeu algumas boas conversas ao surgir da bela lua cheia que nos fez brilhante companhia até a segunda-feira (09), quando desatracamos em uma flotilha de quatro barcos para o retorno a Pelotas.

A flotilha a contrabordo


Xiruzada campeira!


Isadora aprendendo a fazer crochê com a amiga Márcia


Tradicional fogo de chão. Outrora amarravam-se cavalos...


Um espetáculo a parte...

Era para ser apenas uma visitinha ao acampamento, para conhecermos os amigos navegantes e depois seguirmos para o destino planejado mais adiante, a Ilha Grande. Mas, às vezes, somos surpreendidos pela correnteza. Conhecemos pessoas maravilhosas, que nos aceitaram de coração aberto. Nós saímos só para navegar, e voltamos com amigos incríveis, que nos ensinaram sobre culinária, crochê, pesca, navegação. Sobre a vida e tantas coisas mais... decidimos ficar e aproveitar cada momento com eles. A Ilha Grande ficou para uma próxima. Nosso tesouro foi encontrado antes.

A navegação de retorno foi um pouco mais difícil, como esperado. Navegamos a motor e velejamos com ajuda da genoa em alguns trechos, vindo logo atrás do Vikings. Atracamos à margem e nos amarramos a contrabordo um pouco antes da eclusa para um delicioso almoço preparado pelo amigo Bicudo, no Casulo. Dali em diante, forte vento contra. Na eclusa, tivemos um leve encalhe à jusante, mas saímos dando máquinas. O barco Vikings teve um ligeiro problema de sobreaquecimento e nos amarramos à margem (ficamos bons nisto :) para oferecer apoio, mas o Seu Pedro, com enorme sabedoria, descobriu o problema com entupimento na mufla do escapamento e safou sozinho.

Chegamos por volta das 17:00h, bem na hora da reunião de trabalho online da almiranta, que já havia começado a bordo. Mal atracamos ao pier do clube, ela saltou em terra e foi buscar a rede WiFi. Cousas da modernidade que, felizmente, não nos impedem de navegar.

À noite, jogamos Trilha a bordo, após o jantar. Ganhamos este pequeno tabuleiro do simpático casal do veleiro norueguês Petit Pilchard, que conhecemos em Rio Grande. Eles estavam a caminho de Punta del Este no Uruguay, destino final de sua viagem. Lá, acabaram vendendo o barco e começaram outra empreitada a bordo de um veleiro maior.

Isa e Mamãe aprendendo a jogar Trilha

Vencida a primeira etapa do nosso cronograma, postergamos a segunda para uma próxima oportunidade. Seria o prosseguimento da viagem a Porto Alegre, com passagens por São Lourenço do Sul e Tapes, que não ocorreu por motivo de trabalho em terra: a almiranta, então aprovada em uma etapa de concurso público, precisara se apresentar para a seguinte. Motivo de grande celebração a bordo!

Na viagem de retorno, ainda deu para visitarmos nossa querida bisa Leda, na casa dos nossos tios Paulo e Andréa em Criciuma/SC. Ficamos muito felizes em vê-la alegre e bem cuidada, cheia de amor e carinho.

Amor de Quatro Gerações

E assim, seguimos nossa viagem, com deliciosos atrasos em nosso cronograma.

Até breve! Quem sabe nos encontramos em algum acampamento por aí :)

Abraços carinhosos da tripulação do Veleiro Guará: Thom, Rita, Isadora, familiares e amigos.

Bons Ventos Sempre!