segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Por que não chama um guincho!? - Parte 3

Diário, meu caro,

Na manhã daquela chuvosa segunda-feira, demos início à missão de reboque. Acordado por volta das 4:00am com os barulhos das batidas secas dos "beijos" do veleiro Guará na pequena irmã, incentivado pela mudança do vento norte para sul, descasquei uma banana, comi, e iniciei a faina: subi o bote de apoio para o convés, coloquei a base do mastro no veleiro Isadora e amarrei nele o cabo de reboque, por ser este o único ponto na proa com resistência mecânica suficiente para o transporte. A pequena alça no bico de proa do Isadora certamente não resistiria aos impactos das puxadas constantes e repetitivas do reboque da embarcação. Assim zarpamos, bem cedinho, sob chuva fina e leve neblina. Içada a vela mestra, subi a âncora e dei um suave jaibe, para não acordar as meninas que deliciosamente dormiam na cama da proa.

Ao ganhar velocidade, percebi que o pequeno Isadora vinha um pouco de lado. A princípio tudo bem, pois não esperávamos ventos fortes e velejaríamos com um suave vento de alheta (quase entrando pela popa, porém entre a popa e o través dos barcos). Seguindo assim, nas proximidades das ilhas de Ratones, avistei uma rede de pesca armada, com grande extensão. Os pescadores, ali próximos, navegaram em minha direção orientando que deixasse a primeira bóia da rede por boreste, a sotavento. Assim o fiz. Quando o vento entrou de través, os barcos ganharam velocidade e o Isadora capotou rebocado. P... m..!!! Folguei os panos e fui avaliar a situação na plataforma de popa do Guará. Neste momento, percebendo que algo estava errado, eis que a imediata salta da cabine e assume sua função, assumindo o governo do barco pela primeira vez em condição adversa. Uma grande alegria ao comandante, naquele desfavorável contexto!

Tentei desvirar o barco ali de onde estava na popa algumas vezes. Pensei em mergulhar, sabia desta necessidade, mas estava frio e eram 6:00am de segunda-feira, puxa vida. Foi aí que a imediata perguntou: "tu não vais pular na água!?" - pronto. Era só o que faltava. Desci, coloquei a roupa térmica de mergulho e dei um "bico", como se diz nas barrancas do rio Itaquarinchim. Subi sobre o casco do Isadora, fiz a alavanca, tentei uma, duas, três vezes e... nada. Ambos os veleiros em seguimento, a cerca de 3 nós de velocidade, o segundo com a base do mastro servindo de quilha. "Não vai desvirar nunca" - pensei, considerando navegar para a praia mais próxima, fundear e tentar safar o pequeno Isadora que, muito lentamente, começava a fazer água pela geladeira instalada na caixa da bolina. Foi então que lembrei das aulas de vela, onde ensinamos que veleiro monotipo se desvira usando a bolina. Peguei-a, inseri ao contrário pelo casco, até o final, e fiz a alavanca. Bingo! O Isadora estava, novamente, navegando com o casco para baixo.

Mudei então o ponto de reboque e amarrei na alça, mesmo sabendo que poderia não aguentar, sobretudo porque o casco continha água e estava mais pesado. Seguimos navegando, desci, troquei de roupa e, quando voltei, a imediata estava com os olhos firmes no horizonte à frente enquanto o Isadora flutuava, solitário, há uns 300 metros atrás. P... m...!!! Voltamos para buscá-lo, usando o croque (haste com gancho na ponta, usada para pegar a bóia de amarração do barco) para pescá-lo. A alça havia mesmo arrebentado. Amarrei novamente no mastro, mas também não funcionou e o soltei novamente, pois receava que pudesse emborcar mais uma vez. Amarrei então pela popa, na alça da cinta de escora, que estava bem firme. Seguimos assim, cuidadosamente, até a Ponta do Magalhães, um abrigo de vento sul na Baía dos Golfinhos, já em Governador Celso Ramos. Decidimos permanecer ali o resto do dia e pernoitar para, no dia seguinte, seguir por dentro da baía mesmo até a praia da Camboa, na Armação da Piedade, bem pertinho, onde mora um grande amigo, o "Seu Mozart". Naquela condição de reboque, atravessar a praia de Palmas, em mar aberto, seria uma péssima idéia. No dia seguinte, navegamos sob chuva intensa até a Camboa, ancoramos bem e desembarcamos com o veleiro Isadora, recebidos com toda a atenção e pertinente reclamação do nosso querido compadre e também velejador Cleber. Afinal, sair de casa cedinho, sob chuva, para encontrar alguém na beira da praia e ainda ter que fazer força para puxar um barco não é algo lá tããão agradável assim, né!? Desculpa aí, compadre! Coisas do mar... rsrs

Estávamos todos muito bem (e molhados!), quando ganhamos uma carona de carro até nossa base. O veleiro Isadora ficou bem guardado em frente à casa do Seu Mozart, e o veleiro Guará bem ancorado ali perto. No final de semana próximo, eu voltaria para buscá-lo.

A lição aprendida com este incidente remete-nos, mais uma vez, ao solene ditado: "Quem se faz ao mar, avie-se em terra". No mar, assim como em terra, sempre há chances de algo dar errado. A diferença é que, em terra, as redes de apoio costumam estar mais à disposição. Lá, estaremos sozinhos. Por isso, o importante é ter sempre ao menos um plano B e, na falta deste, não fazer.


Veleiro Guará rebocando o Veleiro Isadora, momentos antes do incidente


Bem... ainda falta um pequeno trecho, de umas dez milhas náuticas, que farei velejando solo com o Isadora. Ou será que eu chamo um guincho!? Diz aí nos comentários... você decide!

Bons ventos e... ótimos planos!

Thom.




Por que não chama um guincho!? - Parte 2

Caro Diário,

Continuando a saga do retorno do veleiro Isadora ao seu porto, eis que fiquei com aquele compromisso gostoso, porém inquietante, de PRECISAR navegar. Afinal, o veleiro estava de favor na casa de um amigo recém encontrado, que eu não queria perder, né!? Logo, deixá-lo ali "a perder de vista" não era mesmo uma opção considerada. Guincho, também não!

Bem, então, o jeito seria navegar. Mas a temperatura insistia em não aumentar naqueles dias, o que diminuía "um pouquinho" minha vontade de zarpar dali. Foi aí que surgiu a idéia de fazer um programa de família, daqueles que só a família para aturar mesmo, rs. Ir rebocá-lo com o irmão maior, o Guará! O programa foi imediatamente aceito, com a condição de levarmos junto o carrinho de bebê da Isadora (a filha), que havia sido vendido e precisaria ser entregue naqueles dias. Tudo certo, então!

Já na quinta-feira, embarcamos tudo no Guará. Uma verdadeira mudança, pois planejamos ficar 5 dias no mar e desde nossa estadia no Rio de Janeiro não fazíamos uma destas, então o barco estava bem desabastecido. Cem litros de água, vinte de diesel, comida, roupas, material escolar, brinquedos e, claro, o carrinho da Isa em três partes, com moisés e bebê conforto. Quase desisti! kkk

Na sexta-feira, zarpamos com tempo nublado e chegamos ao destino sob chuva fina e friozinho, em uma bela navegada. Eis que ali seria nosso lar pelos próximos três dias, onde reencontraríamos o Isadora, o amigo Paulo, a tia Nathi, e passaríamos mais alguns dos melhores dias de nossas vidas :)

Veleiro Isadora resgatado, amarrado à "varanda" do Guará

Sem legenda. Pictured by Tia Nathy.

A bordo, os estudos avançam em velocidade impressionante!

Serviço de bordo :)

O jogo do General é o preferido

Tia Nathy, nossa visita de domingo. Mais um laço apertado a lais de guia: não solta, mas também não aperta :)


Continua...


Por que não chama um guincho!? - Parte I

Caro Diário,

Há algum tempo, o veleiro Isadora estava emprestado aos Escoteiros do Mar, para incentivar os jovens à aprendizagem e à prática da vela. E assim cumpriu amorosamente sua missão, por cerca de dois anos.

Quando o levamos, fomos pelo mar, em dois tripulantes: o timoneiro e o proeiro. Foi uma velejada incrível e relativamente fácil, apesar da distância de aproximadamente 30 milhas náuticas.

Para trazê-lo de volta, a expedição seria no inverno, com ventos moderados e água fria. O proeiro perguntou, sensatamente: "-por que não chama um guincho?". Apesar de ter a resposta dentro de mim, refleti sobre ela por alguns segundos e respondi: "-porque barcos navegam..."

Preparamos o barco, consertamos o casco, costuramos a vela, testamos e, na véspera da data programada, dormimos na sede escoteira para sairmos bem cedinho, à vela e motor. Estaríamos com peso extra, e a previsão de ventos contrários havia se confirmado. Navegamos bem e corajosamente, até o través da praia de Cacupé, ao norte da Ilha de Santa Catarina. Ali, as ondas dentro da baía lavavam o nosso convés e, molhados, passávamos bastante frio. Decidimos então deixar o barco na bela praia do Cacupé mesmo, no pátio da casa de um amigo recém conhecido, o Seu Paulo, também velejador nos tempos idos e ainda amante da prática da construção naval. Sem dúvida, um belo presente que o mar reserva aos navegadores. /)/) 

Zarpe na praia do Abraão, na parte continental sul de Florianópolis/SC. Que ansiedade!
Chefes Rodrigo "Chorão" e Thomás

Encalhe na praia do Cacupé, na parte insular norte de Florianópolis/SC. Que frio!
Gentis transeuntes pandêmicos e curiosos da vizinhança

"-E agora!? Por que não chama um guincho!?"

Continua...