Já faz um tempo que estou para escrever sobre uma longa expedição que estamos fazendo. Digo "expedição", porque se trata de uma jornada que busca superar a nós mesmos e às dificuldades que vão além do mar.
Era parte do plano voltar a morar no mar. Mais cedo ou mais tarde, abrir mão de uma boa oferta no trabalho na cidade grande pra viver ali, na beira da praia. Das pessoas, da areia, dos peixes, dos moluscos, dos crustáceos e de tudo que jamais imaginei ver: desde barcos de 40 pés sendo construídos com serrotes e martelos, até capivaras nadando diariamente na água salgada, bem entrosadas com os banhistas. Uma boa escola, um bom posto de saúde, um bom barco, navegador, estanque, seguro, sem radar, nem
, nem estação de vento, geladeira, boiler, guincho elétrico. Se fosse pra definir numa palavra o que temos vivido, eu diria... "raiz".
Depois da difícil transferência no trabalho, decidida com dificuldade, pois fizemos grandes e eternos amigos, a mudança levou a mobília para um lugar desconhecido. Interromper laços de convívio com as pessoas que amamos é sempre algo muito doloroso...
Escolhemos o novo porto olhando no mapa, do mar para a terra. Desta vez, não me importei com a distância do trabalho. O novo "porto" deveria ser bem abrigado dos ventos predominantes, estar próximo da família e da escola, relativamente perto do trabalho. E devia caber no bolso, considerando a grande redução em nossos rendimentos. Olhei para o mapa, percorrendo a região da Grande Florianópolis por "mares nunca dantes navegados". O cursor correu, várias vezes. Depois de algumas viagens para ver terrenos, encontramos finalmente o anúncio de um que cabia no bolso. Era no meio do mato, ainda sem acesso, mas bem localizado e com vista para a futura bóia onde estaria o Guará. Este seria o lugar que deveríamos conquistar, e que deveríamos nos deixar conquistar. Este seria o lugar escolhido para montar a base, que permitiria dar continuidade à execução do "Plano" nos próximos anos.
Apesar da insegurança natural quando se navega em águas desconhecidas, fundamentamos nossa Fé em um sonho que, aos poucos, vem se materializando pela força da vontade, com alegrias mas também dores. Porque nenhum sonho é fácil, e estabelecer um rumo é sempre a parte mais difícil na navegação da vida.
Marcada a data da mudança, pedi ao Vovô Vande, tripulante de mar e terra, que procurasse uma moradia provisória. E foi assim que nos situamos a morar e conviver com pessoas incríveis, simples, acolhedoras e amorosas. Algumas sempre viveram ali, outras também porque escolheram, levadas por sonhos outros. Como o salva-vidas argentino que, amante da arte de viajar, deixou seus apegos e trouxe esposa e filhas para viver o seu sonho na praia com as capivaras marinhas.
O caminhão da mudança chegou com quase tudo e, como esperávamos, não fez nem a curva da rua que dá acesso ao sobrado onde moramos. Feito o transbordo dos "apegos", alocamos tudo como deu dentro do pequeno apartamento. O veleiro Isadora já ficou na beira da praia, feliz, como todo barquinho a vela sonha estar. Na porta do mundo. No mar...
Quase devidamente instalados, faltava ainda outra missão importante: trazer o veleiro Guará, que estava em Paraty.
Iniciados os preparativos da "Expedição", nome dado à missão de velejar com o Guará do Rio à Santa Catarina, veio a seleção da tripulação, a equipe deste empreendimento. As primeiras pessoas que pensei em embarcar, é claro, foram da família. Mas concluímos que não estávamos prontos. A viagem seria longa, e demais trabalhosa e preocupante para mim trazê-las. Confesso que fiquei um pouco frustrado, pois já estávamos nos preparando há 2 anos. Fomos então em busca de outra tripulação. E lembrando mais uma vez do
Shackleton, renomado líder expedicionário inglês, não procuramos experiência, mas sim vontade. Quem estaria disposto a passar horas, dias a fio no mar, vencendo a si mesmo pela força da vontade? Quem estaria disposto a enfrentar o cansaço, os enjôos, as "bruxas" que apareceriam, e colocaria a própria vida em risco para salvar os outros e ao barco? Não tive dúvidas de que a tripulação teria que ser "Mão no Bucho". Este foi o nome de um motogrupo, de duração muito curta, formado por um grupo de colegas da faculdade. É uma expressão gauchesca muito peculiar, intraduzível, que tem a ver com "coragem para o enfrentamento". Coincidentemente, alguns integrantes tornaram-se também velejadores. Além destes dois tripulantes Mão no Bucho, Cleber e Ricardo, que participaram da singradura Ilhabela - Calheiros, contamos também com o sempre presente e corajoso Vovô Vande, no trecho entre Paraty e Ilhabela. No auge dos seus 67 anos, jamais deixa de lado a oportunidade de estar presente e jogar uma linha de pesca na água.
Estes honrosos homens jamais negam um bom desafio. E foi assim que a tripulação da maior expedição já realizada pelo veleiro Guará até então foi constituída: pela vontade de navegar.
Naquela terça-feira, 24 de outubro de 2017, embarquei em Paraty. O dia seguinte estava destinado à preparar o barco para a viagem. Revisar o motor, limpar o tanque de combustível, abastecer com água, combustível e provisões, instalar um turco para subir o bote para a targa e assim deixar a proa livre para as fainas com a vela balão (
gennaker). Foi um dia intenso, e tudo correu bem. Agradecemos aqui ao mecânico Lau, da Yanmar de Paraty, pelo comprometimento e empenho, para que tudo ficasse pronto naquele dia.
Na tarde de quarta-feira 25/10, embarcou o Vovô Vande, após mais uma longa viagem de ônibus de Passo Fundo/RS a Paraty/RJ. Um verdadeiro tropeiro, o vovô. Tomamos banho na marina e fomos às compras, de ônibus mais uma vez, para comprar alimentos. Claro que veio junto um vinho e uma boa pizza, que saboreou aquela noite agradável, na qual também recebemos a bordo o amigo Marco Ferrari, que nos passou as dicas valiosíssimas para a viagem, ajudou nas previsões de tempo, a traçar as estratégias, em tudo. Era o anjo guardião em terra, sempre de olho no nosso rastro, pronto e disposto a intervir em qualquer dificuldade que tivéssemos. Marcão, meu amigo de sempre e anjo do mar, muito obrigado.
Uma chuvinha fina atrasou um pouco nossa saída no dia 26/10. O plano de navegação nos levaria até a Ilha das Couves, já em Ubatuba/SP, para um primeiro pernoite no mar. E assim o fizemos, em uma navegada bem tranquila, com velas e motor, devido ao vento fraco, embora favorável.
A sexta 27/10 amanheceu chuvosa em com vento bem forte. Como o Guará não tem guincho, esperamos o vento aliviar para subir a âncora. Em mais uma velejada bem agradável, alegrada ainda mais pelas boas conversas de pai e filho sobre épocas passadas da família, velejamos até a capital da vela, Ilhabela/SP. Foi bom ouvir o meu pai falar sobre a sua infância, os seus pais, o jeito como eles se conheceram... eu já tinha ouvido estas histórias, mas em outros tempos, com ouvidos de criança. Foi bom lembrar que eu nasci por causa da II Guerra Mundial. Sem ela, o Brasil não teria montado as defesas na fronteira com a Argentina, meu vô Teixeira, paulista, não teria sido destacado pelo exército, não teria conhecido minha vó Nida, gaúcha de Santo Ângelo, e eu não teria nascido nesta família amada. Conversas de convés são insubstituíveis, para qualquer navegador que se preze. Ainda mais sendo pai e filho.
O "Vovô Vande"
Chegamos em Ilhabela acompanhando o surgimento e afastamento de uma tempestade de raios, bem na nossa frente. Eu já estava me preparando para um eventual "cagaço", em bom gauchês, kkk. Pegamos uma poita no Saco da Capela, para dar entrada no Iate Clube de Ilhabela no dia seguinte. Este tradicional clube de vela, ao qual agradecemos grandemente, tem o bom hábito de dar suporte aos navegadores em trânsito, provenientes de outros estados. Planejamos usar a diária de cortesia para o acolhimento e troca da tripulação, usando assim a boa estrutura que o clube oferece. Nada melhor do que tomar um bom banho em terra, antes ou depois de embarcar, não é mesmo!?
Em Ilhabela, descobrimos que o rádio VHF não estava funcionando. Foi então que, por indicação do pessoal do Iate Clube, encontramos mais um anjo pelo caminho, que postergou uma viagem marcada para nos atender e substituir o velho rádio Apelco por um bom Icom usado. Seria imprudência prosseguir viagem sem o rádio, e postergar a partida atrasaria bastante o cronograma da viagem. Não lembro o nome deste gentil profissional que trocou a correria da vida profissional na manutenção de equipamentos aviônicos pela tranquila vida ilhéu na manutenção de equipamentos marítimos, mas deixo aqui meu apreço e consideração pela boa vontade em ajudar, inerente aos bons homens do mar.
No sábado a tarde, o Vovô Vande foi visitar a netinha Mariana em São José dos Campos/SP e despediu-se da expedição, deixando 1.002 recomendações, rsrs. Recebemos os "marujos" Cleber e Ricardo, vindos de Floripa, no sábado à noite. Depois de um relaxante banho e um jantar no centro histórico da bela ilha, conversamos sobre o roteiro e embarcamos.
O plano inicial seria passarmos o domingo em Ilhabela, conhecendo a região, para partirmos na segunda-feira. Mas a chegada de uma frente contrária na terça-feira, vinda de sul, nos fez optar por adiantar a partida e seguir até Cananéia, no litoral sul de São Paulo, ou Paranaguá, no litoral norte do Paraná. Optamos por seguir até Cananéia e partimos no domingo 29/10 pela manhã, bem cedinho. Ao amanhecer, estávamos deixando Ilhabela por bombordo, avistando o sol nascer por detrás da bela ilha.
A viagem transcorreu bem durante todo o dia e à noite, com os três tripulantes e também a Tinker Bell (o piloto automático que eu tinha conseguido consertar :-). Fazíamos turnos de 2h para cada tripulante, meio desequilibrados, devido a adaptação à rotina de bordo. Ao entrar a noite, baixamos a vela mestra para o primeiro rizo, para prevenir a necessidade de alguma manobra maior nas velas durante a madrugada.
No final da manhã de segunda, um vento nordeste mais forte fez o mar crescer um pouco acima do esperado. Já avistávamos a ilha do Bom Abrigo, próximos a Cananéia, quando a "enteada da bruxa" resolveu aparecer. Foi assim que chamamos o pequeno mau tempo que enfrentamos, com ventos de aproximadamente 25-30 nós e ondulações de curtas vagas com 2m de altura. A destreinada tripulação foi testada, um bom timoneiro demonstrou talento (Ricardo) e um ágil proeiro rapidamente subia as pequenas tábuas retráteis da plataforma de popa do Guará que teimavam em cair (e travavam o leme!). Enquanto esta faina se repetia, o mestre comandava as velas já com algumas pequenas avarias, apanhava os coletes e tentava conter o vazamento de água doce que vertia pelo respiro do tanque de boreste, alagando o interior do barco, em meio ao forte cheiro do óleo diesel derramado pela tampa de inspeção do tanque de combustível quebrada (que ficou para ser trocada depois da viagem). Passado o rápido susto trazido pela "jovem bruxa", que elevou a adrenalina da tripulação, era o momento de se recompor. Enquanto rumávamos para a barra de Cananéia, cheia de baixios (apesar da maré alta), decidíamos entre enfrentar a desconhecida barra sem auxílio de praticagem ou ancorar na Ilha do Bom Abrigo. Após uma aproximação, optamos por seguir ao Bom Abrigo, pois a insegurança em adentrar a barra nos levou a permanecer no mar. Paramos por alguns minutos próximos à Ilha, sem fundear, e avaliamos a situação à bordo: a genoa estava ok, apesar da capa de proteção rasgada; a vela mestra estava com 5
sliders quebrados, o que exigia reparo e tínhamos apenas 2 sobressalentes a bordo; o vazamento no tanque de água doce estava contido com uma rolha fabricada de improviso e saco plástico; parte do diesel havia sido derramado para o porão, a bóia marcadora de combustível colou no fundo e deixou de funcionar e o motor provavelmente tinha consumido também mais do que o esperado, pois trabalhou a noite toda a 2.300rpm, ao invés de 2.000. Ou seja, estávamos com pouco combustível. Após usar a reserva, refizemos o cálculo de consumo (o vento já estava bem fraco) e decidimos seguir à Paranaguá, mesmo tendo que adentrar a barra à noite. Entrar em Cananéia já não era mais uma opção, e ficar ali na Ilha seria improdutivo para os reparos. Foi uma boa decisão. Aproveitamos um delicioso fim de tarde, com o mar calminho, um lindo pôr-do-sol e o consumo de combustível controlado, estávamos seguros para acessar o canal norte da Baía de Paranaguá à noite.
Ao chegarmos na entrada da barra, passando próximos a um grande baixio, vimos ondas razoáveis arrebentando bem na nossa proa. Quase surfamos! Foi quando decidimos acessar pelo canal sul, o de acesso ao porto. Já era por volta das 22:00h.
Adentramos a baía, contornando a Ilha do Mel em águas espelhadas. Neste lindo cenário, enquanto conversávamos cansados, escolhíamos o fundeadouro pela carta eletrônica. Pela presença de postos de combustível, escolhemos adentrar a pequena barra em Pontal do Sul, já por volta da 01:00am. Foi quando a profundidade variou bruscamente e encalhamos, bem próximos à entrada da barra. Tentamos com motor, e nada. O desencalhe precisou ser pela água, empurrado pelos dois animados e cansados tripulantes. Assim que o Guará soltou, os tripulantes reembarcaram e correram para o chuveiro frio, sem par ou ímpar. Cogitamos pernoitar ali mesmo, à beira do canal, mas a passagem de um navio nos fez desistir da idéia prontamente. "-não navegamos dois dias para dormir aqui, deste jeito, falei. Não é digno. Vocês estão cansados, podem descer para dormir. Eu vou tomar um banho quente (sim, esquentei água no fogão), vou suspender e seguir para o Iate Clube."
O Iate Clube de Paranaguá ficava a cerca de 12 milhas de onde estávamos, ou seja, cerca de 2:30h de navegação. Chegaríamos lá por volta das 04:00 de terça-feira, estaríamos bem abrigados e com acesso ao reabastecimento e reparos necessários. "-
Vamos até o fim - pensei".
Assim fizemos. E que adorável decisão. Jamais me esquecerei da melhor motorada que já naveguei na vida. O Guará deslizava suave, levado pela maré enchente da lua Nova que entrava, em uma água espelhada que a refletia lindamente. Já perto do Iate Clube, nas proximidades da Ponta da Cotinga, a carta indicava um ancoradouro à boreste de onde estávamos. Decidimos ancorar e dormir ali, naquela tranquila noite, para realizarmos as manobras de atracação no Iate Clube na manhã seguinte. Assim o fizemos.
Poucas horas depois, bem cedo, fui acordado pelo barulho do rádio VHF. Levantei para desligá-lo e aproveitei para olhar para fora. Foi quando levei mais um susto: a maré baixa revelou uma pequena ilhota de pedras muito próximas da popa, que não estavam cartografadas. Foi o tempo de subir correndo, puxar o cabo da âncora e safar o barco. Aproveitei para suspender e seguir para o Iate Clube, para terminar de dormir lá. Ao chegar, ainda antes das 8h, encontrei uma vaga no cais e lembrei do conselho do capitão Ferrari: "-no mar, quando chegar em qualquer lugar, primeiro faz, depois avisa". Atracamos o barco e fomos dormir, o que causou certa estranheza no pessoal do clube. Já era meio dia passado quando resolvi levantar e me apresentar com os documentos. A secretaria estava fechada, voltei a dormir e fui novamente às 14h. Me apresentei, pedi desculpas pela "invasão", apresentei os documentos e me passaram o valor da diária. "-Agradecemos a acolhida e sem querer exagerar - disse ao atendente - o Iate Clube de Ilhabela costuma dar uma diária aos navegantes que precisam de algum apoio. Seria possível obtê-la? Não custa perguntar". O atendente consultou o comodoro do clube e ganhamos à diária. Deixamos aqui o registro do nosso agradecimento especial ao Iate Clube de Paranaguá, pelo acolhimento gentil e marinheiro oferecido. Precisávamos muito daquele afeto. Muito obrigado.

Jantar a bordo
A faina em Paranaguá
Reservamos aquela terça-feira (31) para elevar o moral do barco, da tripulação e resolver problemas. Enquanto isso, o aguardado vento sul, lá fora, se apresentava e subia o mar em sentido contrário ao nosso rumo.
A primeira missão foi organizar o Guará. A tripulação, engajada a cada segundo, lavava o convés, organizava a cabine e aduchava os cabos. O fato de colocar tudo em ordem, impressionantemente, alegrou a todos. Feito o serviço, saímos para comprar peças e almoçar. Nesta ocasião, mais um anjo surgiu pelo caminho. Um rapaz que estava "à deriva", ao conversar conosco, resolveu nos levar às lojas onde possivelmente encontraríamos alguma peça para veleiro. Nenhuma. Mesmo assim, encontramos uma pequena loja de peças para lanchas. Foi aí que improvisamos os sliders, pequenas peças cilíndricas de polietileno que correm no trilho do mastro para içar a vela mestra, com pequenos passadores de cabos. Uma serradinha aqui, outra costuradinha ali, um pouco de silicone náutico e pronto: estavam fabricadas as peças que faltavam para subir e descer a vela com grande facilidade.
Depois de um bom almoço, uma boa caminhada pelo centro de Paranaguá, um bom banho, um bom jantar a bordo e uma boa noite de sono, iniciamos o mês de novembro com um bom café da manhã e abastecemos o Guará para continuarmos nossa pequena travessia. O plano era soltar amarras às 10:00h para, por volta das 13:00h, sairmos pelo canal sul de Paranaguá, na hora prevista para o estofo da maré (maré mais alta), evitando assim as ondulações maiores que surgem pelo encontro das águas fora da barra. Sem querer, mas já imaginando, todos os grandes navios tiveram a mesma idéia. O Guará parecia uma pequena bicicleta, trafegando pelo meio-fio de uma estrada, enquanto caminhões enormes passavam buzinando, um após o outro. Uma experiência morosa e muito fascinante, com aquela sensação chata de não ter pra onde correr se alguma coisa der errado. Afinal, não estávamos mais dispostos a exceder, em nenhuma unidade, as 2.000rpm que proporcionavam a melhor relação de rendimento e consumo de diesel para o pequeno motor de 18HP.
Com vento e pequenas ondas contrárias, lentamente, o veleiro Guará foi deixando o canal de acesso ao porto. Naquele momento esperado e mágico de mudança de rumo, que sempre marca uma travessia, de forma lindamente coordenada, dois tripulantes vestiram os cintos de segurança e içaram a mestra junto ao mastro, enquanto o timoneiro acertava o rumo praticamente sem deixar a vela panejar. Foi bonito de ver. Depois do que passamos, dos obstáculos vencidos, com o barco lindo e inteiro, encher as velas e marcar na bússola o rumo de casa foi uma sensação incrível. O dia estava lindo. O vento soprava pelo nosso través, com uma intensidade de uns 12 nós, o que nos permitiu desligar o motor. Comemoramos aquela condição feliz, de superação. A tripulação que foi se consagrando ao longo da pequena viagem comemorou com três bacias de pipoca e refrigerante.
Vida a bordo
O vento continuou soprando constantemente, arribando lentamente ao longo da noite. Como a Tinker Bell (que na viagem foi carinhosamente chamada de "Villaça", nome de um dos nossos ótimos professores da faculdade) parou de funcionar durante a "bruxa de Cananéia", nos restava timonear. Organizamos os turnos, com fidelidade pontual, e assim viramos a noite, na mesma pegada. Não precisamos do motor um momento sequer. Uma noite linda, bem iluminada, com vento constante e favorável, transformou aquela velejada em uma das melhores. Três tripulantes foram um bom número para aquela travessia. Fizemos turnos de 2 horas, o que nos permitiu descansar 4 horas seguidas.
Chegamos em Porto Belo por volta das 11h da manhã de quinta-feira, 02/11. O plano era ancorarmos ali, na Enseada do Caixa d'Aço, para arrumar o barco, fazer a barba e chegar em casa na sexta-feira dia 03. Porém, como a viagem adiantou em relação ao previsto e não haveria ninguém esperando no porto, adiantamos e fomos direto para Floripa.
Foi uma chegada muito emocionante. Avistar a pequena enseada, ao longe, que o nosso novo porto, foi muito legal. E saber que chegamos ali por meios próprios, por meio de uma experiência inédita, tornou o momento ainda mais especial.
Algumas milhas antes da chegada
Deixo aqui meu agradecimento muito sincero à tripulação do veleiro Guará nesta expedição, "Mão no Bucho", que aderiu ao desafio de fazer esta viagem com determinação, coragem e sobretudo camaradagem: Vanderlei Zancan (meu pai "Vovô Vande"), Cleber Amaral e Ricardo Vasconcellos. Conviver a bordo sob condições restritas e constante tensão, não é uma tarefa fácil. Só os mais sábios e resilientes conseguem.
Agradeço também às minhas meninas, tripulantes de sempre. Adaptar-se à vida em terra, para viver no mar, é algo que requer desprendimento e coragem.
Muito obrigado!
Uma família no mar
E você!? Gostaria de viver uma experiência incrível como esta!?
Você também pode ser um tripulante!
luzdevelasail@gmail.com