Eu sabia que esta seria diferente. Ela seria longa, desconfortável, com companhias quase todas até então virtuais, em um verdadeiro mar de incertezas para mim. Outros tantos navegadores já fizeram jornadas muito maiores, mas o nosso oceano é sempre do tamanho que o conhecemos. E este, teria para mim ondas imensas, com vagas de duração interminável.
Eu sabia também que ela seria importante, um marco. No plano de projeto que chamei de KISS (mantenha simples, estúpido!), este marco iniciaria a Etapa II - Médios Cruzeiros, e serviria para eu saber como me comporto a bordo, para a partir daí envolver a família em viagens maiores pelo mar. E foi com imenso prazer e alegria que recebi o convite do comandante Elson, para compor a tripulação que levaria o veleiro Iguape de Antonina/PR até Ubatuba/SP, seu novo lar.
Desembarcamos em Curitiba ainda pela manhã, e fomos recebidos pelo amigo Zilmar, dono do estaleiro Franzen. Eu havia falado com o Zilmar por e-mail, há dois anos atrás, quando procurava alguém para construir o barco. A primeira de outras felizes coincidências desta viagem.
No caminho para Antonina, passamos pela Estrada da Graciosa, que faz jus ao nome que tem. Durante anos, enquanto morei em Santa Catarina, sempre quis conhecê-la e nunca tive um motivo mais forte. Esta foi outra feliz coincidência. Gratidão ao amigo Zilmar, que aliás, descobri ser irmão do Ziegott, um amigo velejador que conheci em Paraty. Outra feliz coincidência. É impressionante como o mundo fica pequeno nas coisas que se relacionam com o mar. Por isso, comecei a acreditar que atravessar o Pacífico pode ser só uma voltinha mesmo, rs.
Por volta do meio-dia daquela quinta-feira 27/04/2017, estávamos a bordo do veleiro Iguape. Um belo MJ33, com duas cabines na popa, uma na proa, e um salão central que acomodaria muito bem a tripulação de 5 homens-do-mar: o capitão Elson, eu, o experiente navegador Maurício Rosa (que coincidentemente feliz aposentou-se na empresa em que trabalho há alguns anos atrás), o Maurício Apolinário (ex-dono do Iguape, então "Teimoso") e seu filho Bruno. Após realizarmos alguns reparos no piloto automático, que depois acabou não funcionando (assim como a minha Thinker Bell...), abastecermos com diesel, água e provisões, soltamos amarras por volta da 01:00am, rumo à barra de Paranaguá. O plano era aproveitar a maré vazante, que lá é forte, e adentrar a barra ao amanhecer, para superar com maior visibilidade alguma possível maior ondulação no encontro das águas. Ah, e claro, ver o sol nascer no mar. Mas este é apenas um pequeno detalhe... :)
A bela Antonina/PR.
A viagem de aproximadamente 200 milhas náuticas até Ilhabela levou 43h, com uma média então de 4,65 nós de velocidade, que correspondem a mais ou menos 8,4km/h. Sim, isto mesmo. É um veleiro!
O vento que soprou de sueste, e depois de Leste, apesar de fraco, aliado às ondulações também vindas de sueste, ajudaram a empurrar o barco "pra cima". Velejamos um bocado, e motoramos outro tanto. Na vela, o barco navegava entre 4,5 e 7 nós. No motor, a aproximadamente 6 nós de velocidade. Uma média boa, para um barco de 33 pés.
Eu já viajei do Paraná para São Paulo muitas vezes de carro. As rodovias duplicadas, em condições normais, possibilitam médias de velocidade próximas a 80km/h. Desta vez, a velocidade foi de 8km/h. A gente tende a comparar as coisas... mas não dá pra comparar. No carro, a gente quase sempre embarca pensando em chegar. Em um veleiro, acho que a gente nunca deve embarcar pensando em chegar. Naqueles momentos ali, toda a sua vida vai junto. Sua casa, sua comida, sua água. Seu círculo de relações se resume à tripulação. O celular não pega lá fora. O tempo pára... o chão mexe, o tempo todo. Eu enjoei, muito. O tempo todo. Vomitei algumas vezes, acho que umas oito. Senti dor de cabeça. Mas, estranhamente, aceitei o fato de que não podia ser diferente. Aquele era o meu meio, por tempo indeterminado. Procurei reagir, trabalhar, cumprir meus turnos, bebendo e comendo sempre que possível. As barrinhas de cereal foram uma ótima idéia do meu compadre Cleber, em uma mochilada que fizemos ao Peru há alguns anos atrás. E as balas de banana de Antonina... alimentavam a todos os que compartilhavam os turnos de 2h comigo. Eu poderia, ali, ter tomado a decisão de que aquela não era a vida que eu queria. Mas, estranhamente, criei um vínculo ainda mais forte com o mar.
Os golfinhos, ah... companheiros inseparáveis. Apareceram umas 5 vezes pelo menos, sempre em cardume. Viajam conosco por um tempo, e depois voltavam. Devem ter nos escoltado, só pode. Quando apareciam, qualquer indisposição ia embora na hora.
Chegamos à Ilhabela no sábado, por volta das 20:00h. Fomos muito bem recebidos na sede do Iate Clube, que nos disponibilizou uma poita, um dingue para embarque/desembarque, chuveiro quente (que maravilha! Não tomei banho no mar, não - rs. Aliás, usar o banheiro é sempre uma aventura à parte, e bem rápida, porque o lugarzinho fica complicado) e um restaurante ótimo, com bom preço e boa comida. Fomos recebidos também pela família do Maurício e do Bruno, que foi de Curitiba de carro para levá-los de volta. Os dois desembarcaram nesta ocasião.
No domingo pela manhã, muito tranquilamente, após uma ótima noite de sono em águas tranquilas, a tripulação que ficou foi dar um passeio rápido pela Ilha. Tomamos café em uma lanchonete, voltamos para o barco e soltamos amarras rumo a Ubatuba. Este trecho, de aproximadamente 3h ensolaradas e motoradas porque não tinha vento nenhum, foram desfrutadas com alegria, chimarrão e muita descontração. Chegamos à Ubatuba bem na hora da largada da Regata programada para aquele dia. Cruzamos bem no meio da raia - rs.
Após amarrarmos o Iguape à sua nova poita, seu novo lar no Saco da Ribeira, fomos comer uma deliciosa moqueca de peixe com banana, aliás bem merecida. À noite, "penetramos" nas festividades da Regata, promovida pelo Iate Clube de Ubatuba. E foi aí mais uma feliz oportunidade de conhecer outros tantos amigos "virtuais", que nos acolheram como irmãos de muitos anos. Acho que as amizades do mar são muito duradouras.
Depois de mais uma noite bem dormida a bordo de águas abrigadas, com fogão parado, a disposição para preparar, enfim, o prometido cuscuz, apareceu. E no fim, com ajuda do Maurício Rosa, preparamos para o capitão um delicioso café nordestino, somando ao cuscuz ovos mexidos, carne seca com cebola, pão e café com leite.
Já perto do meio dia, embarquei no ônibus rumo a São José dos Campos, para rever a família e contar de perto pra alguém as aventuras "sobrevividas". Afinal, nossas pequenas proezas ficam mais saborosas quando compartilhadas, não é mesmo!? :-)
O vento que soprou de sueste, e depois de Leste, apesar de fraco, aliado às ondulações também vindas de sueste, ajudaram a empurrar o barco "pra cima". Velejamos um bocado, e motoramos outro tanto. Na vela, o barco navegava entre 4,5 e 7 nós. No motor, a aproximadamente 6 nós de velocidade. Uma média boa, para um barco de 33 pés.
Eu já viajei do Paraná para São Paulo muitas vezes de carro. As rodovias duplicadas, em condições normais, possibilitam médias de velocidade próximas a 80km/h. Desta vez, a velocidade foi de 8km/h. A gente tende a comparar as coisas... mas não dá pra comparar. No carro, a gente quase sempre embarca pensando em chegar. Em um veleiro, acho que a gente nunca deve embarcar pensando em chegar. Naqueles momentos ali, toda a sua vida vai junto. Sua casa, sua comida, sua água. Seu círculo de relações se resume à tripulação. O celular não pega lá fora. O tempo pára... o chão mexe, o tempo todo. Eu enjoei, muito. O tempo todo. Vomitei algumas vezes, acho que umas oito. Senti dor de cabeça. Mas, estranhamente, aceitei o fato de que não podia ser diferente. Aquele era o meu meio, por tempo indeterminado. Procurei reagir, trabalhar, cumprir meus turnos, bebendo e comendo sempre que possível. As barrinhas de cereal foram uma ótima idéia do meu compadre Cleber, em uma mochilada que fizemos ao Peru há alguns anos atrás. E as balas de banana de Antonina... alimentavam a todos os que compartilhavam os turnos de 2h comigo. Eu poderia, ali, ter tomado a decisão de que aquela não era a vida que eu queria. Mas, estranhamente, criei um vínculo ainda mais forte com o mar.
Os golfinhos, ah... companheiros inseparáveis. Apareceram umas 5 vezes pelo menos, sempre em cardume. Viajam conosco por um tempo, e depois voltavam. Devem ter nos escoltado, só pode. Quando apareciam, qualquer indisposição ia embora na hora.
Escoltados pelos nossos amigos do mar
Uma bela recepção
No domingo pela manhã, muito tranquilamente, após uma ótima noite de sono em águas tranquilas, a tripulação que ficou foi dar um passeio rápido pela Ilha. Tomamos café em uma lanchonete, voltamos para o barco e soltamos amarras rumo a Ubatuba. Este trecho, de aproximadamente 3h ensolaradas e motoradas porque não tinha vento nenhum, foram desfrutadas com alegria, chimarrão e muita descontração. Chegamos à Ubatuba bem na hora da largada da Regata programada para aquele dia. Cruzamos bem no meio da raia - rs.
Descontraída alegria
Vamos correr!?
O veleiro Iguape. O nome do barco é uma homenagem do capitão Elson aos seus pais.
Após amarrarmos o Iguape à sua nova poita, seu novo lar no Saco da Ribeira, fomos comer uma deliciosa moqueca de peixe com banana, aliás bem merecida. À noite, "penetramos" nas festividades da Regata, promovida pelo Iate Clube de Ubatuba. E foi aí mais uma feliz oportunidade de conhecer outros tantos amigos "virtuais", que nos acolheram como irmãos de muitos anos. Acho que as amizades do mar são muito duradouras.
Depois de mais uma noite bem dormida a bordo de águas abrigadas, com fogão parado, a disposição para preparar, enfim, o prometido cuscuz, apareceu. E no fim, com ajuda do Maurício Rosa, preparamos para o capitão um delicioso café nordestino, somando ao cuscuz ovos mexidos, carne seca com cebola, pão e café com leite.
Já perto do meio dia, embarquei no ônibus rumo a São José dos Campos, para rever a família e contar de perto pra alguém as aventuras "sobrevividas". Afinal, nossas pequenas proezas ficam mais saborosas quando compartilhadas, não é mesmo!? :-)
Dupla da tripulação no turno - Elson e Maurício
As balas de Antonina. Hummm....
Um merecido brinde, e...
..."safo de mar e guerra". Até a próxima!










