segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dia 4 - Ilha das Couves

"Taí um lugar que vale a pena conhecer: a Ilha das Couves, em Ubatuba/SP. E bem acessível.
Para quem vai de carro, é só ir até Picinguaba, na Rio-Santos, e alugar um taxi-boat até a ilha. Você vai achar que chegou no paraíso, e de fato, chegou. Praia calminha, areia branquinha, Mata Atlântica nativa... um lindo lugar para passar o dia com a família.
Bem, mas... voltando ao mar, já que estamos nele - rs. Passamos o dia no vilarejo de Picinguaba. O bom de viajar é chegar nos lugares, e poder se dedicar a eles, pelo menos um pouquinho. E este vilarejo de pescadores é um lugar desses, pra se viver, ainda que seja por um dia só.
A mamãe acordou com vontade de fazer faxina no barco. Para deixá-la mais à vontade, embarquei com a capitãzinha no bote e fomos até a praia. Ela adora o bote: brummm... brummmm... bote... ela diz, apontando. A velejadorazinha também adora um motor - rsrs.
Desembarcamos na praia e fomos caminhar. O dia estava nublado, fechado, e o pequeno vilarejo bem vazio. Fomos atrás de encomendar um feijãozinho pra Isadora em um dos restaurantes. Chegamos em um, fiz a encomenda e, enquanto era preparado, fomos caminhar. A filhinha da dona, uma moreninha muito querida de uns 6 anos, se encantou com a Isadora. Levava pra lá e pra cá, carregando no colo. Enquanto isso, eu conversava com a mãe dela, esposa de um pescador que tinha saído para o mar. Descrevo abaixo um trecho do diálogo:
-Vocês estão hospedados aqui? - perguntou a senhora.
- Não, estamos no barco. Chegamos ontem.
- Qual barco?
- Aquele lá, pequenininho, ancorado mais pra fora.
- Puxa, você deixou longe...
- Pois é, estava meio congestionado ali nas poitas. E não gosto de pegar qualquer uma, pois o dono pode não gostar. Mas esta noite esta mesmo bem mexido.
- Olha, aquela ali é do meu marido - disse a senhora, apontando para uma poita bem abrigada. Se você quiser, pode usar esta noite.
- Puxa, muito obrigado! Mas penso em sair, em dormir na Ilha das Couves.
- Lá na ilha!? Não vai não, moço... você viu a ressaca lá no sul? Virou barco e tudo. É muito perigoso. Fique aqui, é mais pertinho, se precisarem de algo estamos aqui. Esse mar é perigoso.
- Tá bom, vou pensar. Agradeço muito - disse eu.
Aí a gente vê o respeito das pessoas do mar, pelo mar. Eu também o respeito muito, por isso sempre vejo a previsão do tempo. E continuaria tranquilo nos próximos dias, apesar da terrível ressaca que assolou a costa do Rio Grande do Sul na noite anterior. Por isso, decidi partir. Sabia que a Ilha das Couves nos proporcionaria uma noite de sono muito mais tranquila do que ali.
Peguei o feijãozinho, quentinho e cheiroso, fui atrás da Isadora (que a estas horas já estava quase se enfiando embaixo do restaurante com a sua nova amiguinha) e nos despedimos.
- Aonde vão? - Perguntou a nova amiguinha.
- Vamos voltar para o barco - respondi.
- Qual barco?
- Aquele lá - disse apontando para o Guará
- Aquele pequenininho!?!?
- Sim, aquele. De perto até que não é tããão pequenininho assim - respondi rindo.
- Mas... como vocês vão chegar até lá?
- Vamos pegar o outro barquinho que está na praia.
- Ahhh tá... - disse ela - Tchauzinho, Isadora!
E voltamos "pra casa", pra almoçar. A Isa, o feijãozinho e eu. Mais um tchauzinho para os nossos amigos franceses (suponho), e entramos para almoçar.
Depois do almoço, enquanto a pequena e a mamãe cochilavam mamando na cabine de proa, subi o ferro, abri a genoa e saímos, lentamente, aproveitando a brisa agradável que soprava de leste. Fomos velejando assim, até a Ilha das Couves. Ancoramos, fomos até a praia, nadamos naquele paraíso tropical e voltamos para comer pipoca.
Como esperado, dormimos abençoadamente bem. O dia seguinte prometia..."

 Grandes amigos

 Explorando o vilarejo. Roots total!

A navegadora, o seu barquinho e o mar.

 O restaurante que visitamos por terra, no ano passado. "Um dia, nós vamos vir de barco aqui" - lembro de ter dito...

Amizade...

A vida segue a bordo, enquanto...

...o barquinho vai, suave e silencioso, embalado pelo vento. À nossa proa, o abrigo da próxima noite.

Hummmm... pipoca estourada na panela. Que delícia!!!

Waypoint: 23º25,292'S  044º51,453'W
Data: 18/10/2016
Distância percorrida: 3MN
Tempo estimado de viagem: 0:45h
Jantar: arroz, feijão e macarrão com molho de tomate

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dia 3 - Da Ilha Anchieta à Enseada de Picinguaba - Ubatuba/SP

"Diário,
Neste dia a navegação foi um pouco mais longa. A cada vez que vamos, procuramos tornar o processo de ambientação ao mar o mais prazeroso possível: nada de muita distância da terra (e o medo de esquecer alguma coisa-rs), nada de ancoradouros muito mexidos para dormir, nada de longas distâncias. Em resumo... é uma vadiagem mesmo. Como tem que ser. Agradável, prazerosa, tranquila e feliz vadiagem. Sempre que possível, é assim.
Mas... quando é hora de trabalhar, todo mundo pega junto. A Isadora cuida dos peixes, a Rita cuida da Isadora, ajuda no leme e na faina a bordo; eu faço a navegação, timoneio, cuido da Isadora, faço a faina a bordo, e por aí vai. Temos nossa rotina, que procuramos levar da forma mais parecida com a nossa rotina em terra, para que a Isadora não estranhe muito. Os horários de alimentação, do banho e de dormir procuramos manter com certo rigor. Por isso, planejamos nossos roteiros de acordo com a nossa pequena capitã.
Acordamos relativamente cedo, tomamos um bom café da manhã com capuccino, pão, manteiga, mortadela e fruta, e vamos ao trabalho! Arrumar o convés, guardar tudo o que estiver solto na cabine, içar a vela principal, verificar o motor, ligá-lo, suspender o ferro e partir.
A travessia da Enseada de Ubatuba foi tranquila e muito agradável. O mar estava calmo e o vento fraco e contrário nos levaram a motorar durante um tempo. Algumas ondulações maiores e... mareamos. Primeiro a Rita, depois eu. Pura empatia. A Isadora, firme, observava tudo e alternava entre mamadas e brincadeiras, presa em sua cadeirinha de alimentação que, por sua vez, ficava presa ao suporte do dog-house.
Como estamos sem piloto automático (pois a Thinker Bell deixou de funcionar misteriosamente) desligamos o motor para almoçar tranquilamente, todos juntos sobre o azul do mar, no leve balanço das ondas e das velas folgadas.
Chegamos à Enseada de Picinguaba no início da tarde, ancorando um pouco mais afastados da praia e longe da parte mais abrigada, que estava bem ocupada por barcos de pesca, ao lado de um veleiro de aço, de uns 40 pés, um tanto mau conservado, habitado por um casal. Chamou-nos muita atenção sua bandeira francesa. De pronto, todos cumprimentamos de longe nossos novos vizinhos, que ficaram encantados com a Isadora mandando seus sorrisos, beijinhos e tchauzinhos. Foi um sentimento de muita alegria, e pensei... "puxa, estamos mesmo dando a volta ao mundo. Ainda não saímos, mas isso aqui, é muito próximo do que vamos viver lá fora". Fiquei muito feliz e abri uma cervejinha para comemorar a chegada, ainda bem gelada pelo gelo que ainda resistia na caixa.
Embarcamos no bote de apoio e fomos à praia, onde havia um restaurante. Era quase hora do jantar. Arroz, peixe, feijão e pirão foi o cardápio, devorado pela tripulação. Difícil foi manter a baixinha na cadeira depois que ela viu a pipi, o miau e o au-au.
Voltamos para o barco, tomamos banho, acompanhamos o entardecer e fomos dormir. Foi uma noite difícil, pois à noite as ondulações aumentaram e, apesar de relativamente bem abrigada, a praia arrebenta, e as marolas às vezes atravessavam o barco e o faziam balançar bastante. Alguns objetos caíram no chão enquanto a Isadora dormia sem parar, deslizando de um lado para outro em sua deliciosa caminha na proa."

A capitã e seu charmoso chapeuzinho

De olho nas lajes!

Linda barriguinha, timoneira! Esse vento... rsrs

A derrota do terceiro dia


Waypoint: 23º22,685'S  044º50,409'W
Data: 17/10/2016
Distância percorrida: 15,7MN
Tempo estimado de viagem: 3:55h
Jantar: em terra, na praia de Picinguaba (arroz, feijão, pirão e peixe frito)





quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Outro parênteses...

Estréia hoje!

 


Um parênteses


É que hoje, na hora do almoço, fui ver como estava minha goiabeira do cerrado...
em 15.7474ºS  047.8623ºW

Dia 2 - Soltando as Amarras

"Querido Diário.
"Soltar as amarras", é sempre um momento de vibração e ansiedade. Não é à toa que esta expressão é muito utilizada no dia-a-dia das pessoas. Eu lembro de quando a usava, mesmo sem ter uma relação com o mar. Nem entendia o que significava, mas dizia, como uma forma de expressar o sentimento de liberdade de algo que estava me prendendo a alguma coisa, ou situação.
Hoje, eu pronuncio com mais respeito - rs. "Soltar amarras" é algo que requer algum preparo. E, ao contrário do que pensava antes, que estaria deixando pra trás de vez alguma situação ou problema, virando a página, hoje sei que para "soltar amarras" é preciso não só estar preparado, mas disposto a levar a bagagem (e não deixá-la para trás). Esta bagagem, se refere a tudo o que precisamos levar: nosso planejamento, nossa boa vontade, nossa expectativa da chegada e, sobretudo, os recursos que precisamos ter a bordo. Água. Comida. Energia. Remédios. Coisas que, aqui na terra, encontramos na esquina. Mas lá, no mar, não temos esquinas.
Soltamos as amarras. Desfazer o nó de uma poita, ou subir um ferro, ou desatracar, é sempre uma sentimento misturado de saudade e alegria. Saudade pelo que ficou, pelo que foi vivido, e pelo que sabíamos que estava ali, mas não foi. Alegria por todo o mar de descobertas pela frente: como estará o tempo? E o vento? E o mar? E os golfinhos, virão novamente? Onde vou chegar, largar minha âncora, estará seguro? É tanta coisa...
Mas... soltamos as amarras, com destino a outro estado. Ali, do ladinho, mas outro estado. Estaríamos viajando, de barco, neste marzão de Deus! Angra dos Reis. Um lugar lindo, dos mais lindos do mundo, que já conhecíamos um pedacinho só, de outra navegada. Um lugar de águas mais tranquilas pra Isadora. Um lugar com mais lugares dentro dele, muitos, ancoragens seguras e próximas uma da outra. O que precisamos, quando não temos muito tempo para navegar mais longe. O que precisamos, por ora.
E soltamos as amarras, em um dia lindo, ensolarado. Bem descansados, bem abastecidos, bem ansiosos. Não fomos longe. Ancoramos ali, há cerca de 40 minutos adiante em nossa derrota. na Ilha Anchieta. Esta ilha que já foi presídio, que guarda encantos e histórias de dor, nos acolheu com muito carinho em sua Praia de Fora, a do Engenho, pequenininha, com uma bica de água das mais puras que já vi. Já tinha tomado banho em terra, mas tomei de novo ali, com xampú, com sabonete, com família, com tudo. A festa que a Isadora fez quando viu aquela água, nunca mais vou esquecer. Ali dormimos, ancorados, embalados pela alegria de ver o sol se pôr no nosso novo provisório quintal. "Moramos aqui"-dissemos. Só hoje, moramos aqui."

Prainha do Engenho - Ilha Anchieta - Ubatuba/SP
Mar + areia clarinha + água doce = Sorrisos!


Relax na varanda


Ih... não tem água quente no chuveiro. Que chato, heim Isadora!?

Waypoint: 23º32,127'S  045º03,801'W
Data: 16/10/2016
Distância percorrida: 3,5MN
Tempo estimado de viagem: 50min
Jantar: arroz de carreteiro (de marinheiro - rs)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Dia 1 - O Embarque

"Amigo Diário,
O embarque foi uma experiência muito legal.
Como deveríamos passar duas semanas a bordo, embarcando em um lugar e desembarcando em outro, não dava pra ir de carro. Aliás, nossos carros são coisas engraçadas: eles nos levam aonde queremos, mas sempre temos que pegá-los de volta. Deviam inventar um carro inteligente, que fosse nos buscar sem ter que encher o saco de ninguém que precise dirigi-lo. Acho que logo a gente chega lá.
Bem, voltando ao assunto, fomos de Brasília/DF a Guarulhos/SP de avião, como de costume. Chegando lá, pegamos o primeiro ônibus até São José dos Campos/SP, onde meu querido cunhado foi nos buscar na rodoviária. Aliás, nunca fale mal de cunhado perto de mim, porque o meu é tudo de bom. Pena que minha irmã achou primeiro - rsrs.
O plano era embarcar de SJC até Ubatuba/SP de ônibus também. Mas aí o Enrique, que estava indo encontrar minha irmã em Ilhabela/SP, nos deu uma carona até Caraguatatuba/SP (eita nome difícil!), já pertinho de Ubatuba/SP. Não vou esquecer da cara de pena dele por nos deixar naquela rodoviária minúscula, com criança pequena, cheio de malas. É interessante como as pessoas ajudam pessoas com crianças e malas nos ônibus urbanos. A solidariedade humana é algo fascinante.
O ônibus nos deixou no Saco da Ribeira. Foi engraçado desembarcar na beira do asfalto e sair andando com criança e muita mala por ruas sem calçada, cheia de poças de água. Esta foi a primeira vez que eu me perguntei "o que é que eu tô fazendo aqui?"
Lá no Saco da Ribeira, a pé, mais surpresas boas: o almoço guerrerão (costela assada com acompanhamento livre) no bar do japonês, com direito a um cãozinho acompanhante e uma gentil carona do pessoal da AUMAR pra levar as compras até o pier. Mais solidariedade humana.
Dormimos ali, na poita mesmo, bem abrigados, pertinho da terra, reiniciando outra vez o processo de adaptação ao mar."

"A Isadora feliz da vida almoçando com o seu amigo au-au."

 
Enfim, embarcadas: cansadinhas e felizes

PS: uma coisa interessante sobre o nosso menu de bordo: nenhum alimento que exigisse refrigeração e sempre fresquinho: carne salgada (charque), ovos, macarrão, arroz, suco concentrado, muitos legumes e frutas. E água, claro. Isso porque, da última vez, o roteiro ficou preso a locais com abastecimento de gelo, que precisa ser reposto a cada dois dias.

"Querido Diário"

"Querido Diário.
Nas próximas páginas, vou compartilhar contigo como foi a experiência de morar a bordo por duas semanas com minha família. Não ali na poita, pertinho das facilidades da terra. Navegando, viajando, trocando de lugar a cada dia, se protegendo das intempéries do tempo, vivendo em um barquinho pequenininho, simples de tudo, sem geladeira elétrica nem água quente no chuveiro. Mas com cada quintal...
É. Não foi assim tão fácil. Houveram dificuldades, superadas com bom ânimo e paciência, recompensadas com tormentas e arco-íris."

Foto tirada do convés, durante a aproximação de uma frente fria com ventos muito fortes.