sábado, 9 de setembro de 2023

Depoimento

Caro Leitor,

Abaixo, o depoimento do tripulante e também comandante Cleber Amaral, do Veleiro Serelepe, que já navegou conosco ao longo de boas milhas náuticas:


Cleber, obrigado por compartilhar conosco.
Bons ventos, Comandante!

 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

"Velejando o Brasil Hoje" - Quinto Trecho - De São Lourenço do Sul a Tapes

Querido Leitor,

Abaixo, um resumo da viagem lacustre pelo maior trecho da maior laguna da América do Sul.

Boa leitura!


De São Lourenço do Sul (abaixo) a Tapes (acima)

DIÁRIO DE BORDO:

Zarpe em SLS:       31°22'32,5"S 051°57'57,9"O    09-07-2023   10:00 HMG

Chegada em Tapes:  30°40'00,3"S 051°23'29,9"O   10-07-2023   12:00 HMG

Embarcação: Veleiro Guará (Multichine 28)

Tripulação: Thom Colvara (Comandante), Cleber Amaral e Felipe Colvara (Tripulantes)

Distância percorrida: 93MN (172km)

Condição metereológica: Tempo bom, com ventos de intensidade fraca a moderada
nos quadrantes SE-E-NE-SE

Propulsão: motor e vela mestra / motor, mestra e genoa / mestra e genoa (rizada) / motor

Cardápio: frutas diversas / arroz "a la tum mate" / snacks / macarrão instantâneo

Ânimo da Tripulação: BOM

Regime de Turnos: não aplicado

Horas de motor: aproximadamente 20h, sem intercorrências

Momentos Notáveis: 1 - city tour em São Lourenço do Sul, às vésperas do zarpe. A pequena cidade interiorana e marinheira, repleta de história, fica bucólica e linda nesta época do ano. Fomos apresentados ao tradicional "mondongo" (cozido de miúdos bovinos muy apreciado na estância), ao passo em que caminhamos pelas mais belas praias da Lagoa dos Patos. 2 - A velejada noturna sob um céu repleto de estrelas embalou boas conversas e suscitou um possível contato extraterrestre.

Momentos Difíceis: 1 - atividade pesqueira entre os bancos Quilombo e Vitoriano. 2 - Amarração do bote no turco de popa ineficiente para ondulações contrárias, com vagas curtas: corrigida com reforços e amortecedores elásticos ("snubbers"). 3 - O amanhecer no Saco de Tapes, sob intenso vento sul, dificultou a suspensão do ferro e apressou o acesso à barra do Clube. Havia certa apreensão quanto a um possível encalhe. 4 - Ciclone "bomba" extratropical, entre os dias 11 e 13/07, já no cais do Clube Náutico Tapense: quebra do parafuso do cunho de amarração da alheta de boreste e rasgo na capota bimini.


A "Fazenda do Sobrado", em São Lourenço do Sul/RS: importante cenário da Revolução Farroupilha


A faina de Abastecimento


Marco histórico na barra do Arroio São Lourenço: vale o zoom e a leitura!


Tripulação reunida à mesa


Madrugada à Vela


O imponente Guará em seu novo porto: Tapes/RS


Aquele "Até Breve" que se repete, continuamente, porque quem vem sempre volta!


"Le capitaine et son bateau"


E a natureza venceu!



sexta-feira, 16 de junho de 2023

Fragmentos de uma Travessia


Unhas engraxadas e roupa rasgada: saldo de uma faina de 5h para fazer o motor voltar a funcionar após pane durante uma calmaria no litoral gaúcho.



Pôr do sol no dia da chegada: três dias, três noites e duas violentas tempestades durante a travessia de Imbituba/SC A Rio Grande/RS. Maio de 2022.


"Sempre será mais fácil desistir antes da partida. A tentação será por vezes incontrolável, as razões para ficar se multiplicarão. Haverá sempre apoiadores do abandono, nas horas mais áridas. Antes de partir, podemos achar que a desistência é uma opção segura; que os meses seguintes serão como os que passaram; que a vida seguirá como até então seguiu. Mas desistir é renunciar à chance de partir e à chance de descobrir que a vida pode ser muito diferente do que ela parece ser. Que o nosso peito pode aguentar mais trancos, que as nossas mãos podem ser mais precisas, que a nossa garganta pode projetar mais vozes, que os nossos olhos podem ver muito mais cores do que pensávamos ser possível."

Tamara Klink.

terça-feira, 13 de junho de 2023

quarta-feira, 12 de abril de 2023

"Velejando o Brasil Hoje" - Quarto Trecho - De Pelotas a São Lourenço do Sul

Diário de Bordo

16/02/2023, quinta-feira:

    A viagem começou em terra firme. Depois de, sem sucesso, tentar captar alguma tripulação, o comandante Thom comprou sua passagem de ônibus de Florianópolis a Pelotas. Motivado pela condição metereológica favorável, aliada ao feriado de carnaval e ao Encontro Anual de Vela de São Lourenço do Sul (que aconteceria justamente neste período), o inquieto navegador consultou a família e decidiu comprar sua passagem terrestre, sem mais delongas. Ao entardecer de quinta-feira, desceu a montanha da base em Governador Celso Ramos/SC a pé, embarcou no primeiro ônibus até Florianópolis/SC e depois no segundo até Pelotas/RS. Foi uma boa e demorada viagem, que possibilitou um bom planejamento para a pequena travessia estimada em cerca de 12h.

Descendo a lomba

17/02/2023, sexta-feira:

    Chegando em Pelotas, o comandante Thom foi recepcionado pelo comandante Jorge, do trawler Casulo, que gentilmente o levou até o Iate Clube Pelotas. Durante um necessário café, Jorge contara sobre o quase naufrágio do Casulo, que começou a fazer água imediatamente após colidir com uma pedra submersa, pelas imediações do Clube de Caça e Pesca de Pelotas, muito frequentado pelos navegadores locais. Por azar, durante a correria sobre os porões submersos, Jorge machucara as canelas ao cair em um porão aberto, coberto pela água. Por sorte, nada de grave, e o Casulo já se encontrava fora d'água para reparos no casco e pintura de fundo.


A incrível Lagoa dos Patos


Amigos pelo caminho...

    Ao longo do dia, o vento que soprava de sudeste aumentara bastante, o que requeria do comandante uma boa atenção à condição metereológica prevista para o dia seguinte, quando pretendia zarpar para São Lourenço do Sul. O vento era bom para uma travessia mais rápida, porém se muito forte, bastante trabalhoso para conduzir o Guará em solitário. Foram momentos de preparo e de certa apreensão. Ao meio dia, almoço na casa do comandante Jorge. O cardápio foi um delicioso macarrão com dobradinha (ou bucho, ou mondongo), derrubando neste navegador um preconceito de longa data quanto à iguaria que se apresentava. Estava delicioso!

Macarrão ao bucho!

    À tarde, enquanto preparava o barco, surgiu um tripulante inexperiente, velejador "fresco" que procurava um barco para ganhar experiência. Prontamente, encaixou-se ao perfil do Guará e foi aceito, após brevíssima entrevista com diálogo de três palavras: quer, ir e sim. Mas, como o vento apertou, acho que ele pensou melhor e decidiu adiar a experiência. Novamente, estava solo.

Entardecer no Arroio Pelotas

    Em virtude da difícil navegação pela Lagoa dos Patos, sobretudo naquele trecho, contemplado pelo Canal da Feitoria (uma região estreita, cercada por baixios, redes de pesca e intenso tráfego de navios), procurei por algum outro veleiro que estivesse indo ao encontro e, felizmente, encontrei dois, que iriam participar das regatas alusivas ao Encontro de Vela. Como eram barcos mais rápidos que o Guará, combinei com um dos comandantes de sair uma hora antes, para que fosse alcançado pelo caminho. À noite, preparei um jantarzinho a bordo com o salame que ganhei do comandante Jorge: o delicioso "Arroz Guará", prato tradicional a bordo do nosso barco sem geladeira, que consiste em um risoto preparado com salame ou carne seca. Enviei uma foto ao Jorge, que ficou indignado porque eu havia transformado o salame em linguiça. Ficou uma verdadeira delícia, acompanhada por um delicioso licor "esquecido" a bordo pelo Vovô Vande, em algum embarque perdido no tempo...

18/02/2023 - sábado:

    Por volta das 7h, com o vento ainda fraco, soltei amarras e me despedi do amigo Gustavo, o "Mortoza", que carinhosamente tomara conta do Guará pelo período em que ficara aos seus cuidados em Pelotas. Um bom amigo, sem dúvida, destes que ficam no porto e no coração. "-Me chama pra cuidar do barco em São Lourenço" - disse sorridente. Mas sabíamos que, em um outro cais, novos laços são feitos, substituindo aqueles desfeitos. Para partir, é preciso soltar; para chegar, é necessário amarrar.

Muito obrigado, Pelotas! Até logo!!

    Poucos minutos após o zarpe, já com a vela grande totalmente içada e navegando também a motor, contornamos a curva do Arroio Pelotas para, mais em frente, contornar a curva do Canal de São Gonçalo e adentrar novamente a Lagoa dos Patos. A cada esquina, um abraço de gratidão era lançado atrás. Que acolhimento tivemos! Quantos amigos fizemos!! Que experiências vivenciamos!!! Muito obrigado, Pelotas!!!! Até breve!!!!!


Velejando o Canal de São Gonçalo

    Já na Lagoa dos Patos, o vento soprando de sudeste começava a ganhar força e firmar. Desliguei o motor de seguimos a panos, planando sobre aquelas águas turvas do grande "mar de dentro", como chamam os locais. Atento ao GPS, seguia a trilha sugerida pelo aplicativo Navionics, até que esta, em alguns trechos, começara a indicar a passagem por fora do canal. "-Opa... melhor continuar seguindo pelo canal indicado pelas bóias" - pensei. E assim fomos seguindo, eu e o Guará, até que de repente.... TUM! TUM! TUM! Encalhamos! Tentando entender rapidamente o que havia acontecido, para saber onde estava exatamente, vi que em um momento saí do canal, por não conseguir identificar a cor da bóia ao longe, que indicava o caminho pelo Banco da Sarangonha. A bóia vermelha, que deveria ter sido deixada pelo meu boreste (ou estibordo, à direita da embarcação), estava sendo deixada por bombordo. Enquanto "quicava" naquele fundo de areia dura, com quilha e leme tocando o fundo, liguei o motor com máquina à ré e percebi que o Guará se mexia. Uma ótima notícia, indicando que poderia sair. Enrolei a vela genoa (da proa), desci a vela mestra e observei um veleiro passando pelo canal. Chamei no rádio, informei minha profundidade e solicitei reboque, mas o comandante informou que não conseguiria chegar até ali, por justamente ser raso. Pedi a ele que continuasse por ali, enquanto tentaria sair a motor, para algum possível socorro. Um encalhe é sempre muito perigoso, pois os movimentos das ondas fazem com que o barco suba e desça repetidamente, batendo quilha e leme no fundo, de forma que, em algum momento, algum deles poderia abrir o casco e naufragar.


O primeiro encalhe

    Atento ao GPS, com máquina atrás navegamos bem em cima da linha percorrida, voltando assim pelo mesmo caminho. Após uma grande volta para contornar o banco, consegui voltar ao canal e seguir navegando. Por Netuno, assistente divino para assuntos marítimos, avistei um rebocador bem próximo que navegava justamente em nosso rumo pretendido. Com vento bastante fresco, abri apenas a genoa e navegamos a incríveis 7 nós! Para não ultrapassar o rebocador, enrolava a genoa para reduzir a área vélica, diminuindo assim nossa velocidade. Seguimos a nau até o final do Canal da Feitoria, o trecho mais estreito da Lagoa dos Patos. Ali, uma encantadora mudança na cor da água abrilhantou aquele momento: de um escuro marrom, para um verde fascinante. Ao mudar o rumo para São Lourenço do Sul (seguindo ao norte iríamos a Porto Alegre), o vento entrou pelo través, o barco adernou divertidamente e seguimos velejando com grande alegria e bom ânimo a bordo, agora na reta final de nosso destino, programado para próximo das 17:00h em hora local.


Ilha da Feitoria: passagem perigosa!

    Já próximo à barra do Arroio São Lourenço, fora possível avistar os pequenos veleiros monotipos participando das provas defronte à praia, na Lagoa dos Patos. Lembrei-me imediatamente de minha primeira viagem oceânica, como tripulante do grande amigo e capitão Mucuripe, quando atravessamos de Antonina/PR à Ubatuba/SP. Naquela ocasião, cruzamos exatamente pelo meio da raia, praticamente participando da prova por alguns instantes. Lembrei também, com muita saudade, da minha filha Isadora, treinando em um pequeno Optimist. Espero pelo dia em que poderei vê-la competindo com seu próprio barco, tomando suas próprias decisões, sentindo e controlando suas próprias emoções...

    Durante este turbilhão de sentimentos, senti novamente a falta da flotilha que eu acompanharia neste difícil trajeto, sobretudo para quem nunca o fizera antes: ocorreu que um dos barcos decidira não zarpar, ao passo em que o outro zarparia apenas mais tarde, tendo chegado apenas à noite. Mas, o ônus de quem navega, muitas vezes, é se ver sozinho a bordo do seu barco, vencendo constantemente seus medos e tomando suas próprias decisões ante o desconhecido. Fiz contato com terra e fui informado de que o canal estava com bom acesso, em profundidade adequada ao calado do veleiro Guará. "-Aí entra até com balão em pé!" manifestou um entusiasmado velejador, já no clima da prova que participaria no dia seguinte. De olho no GPS, navegando exatamente em cima das marcas (aliás, um trabalho de batimetria* de grande valia realizado pelo velejador Christian na Lagoa dos Patos), segui até me encontrar com uma grande galhada exatamente em minha proa, bem sobre as marcas virtuais posicionadas na carta náutica digital. Naquele rumo, não poderia ir. Teria que guinar para boreste ou bombordo, sob pena de mais um encalhe. Olhei para a barra do arroio que nunca tinha adentrado antes e visualizei os molhes à bombordo, decidindo então deixá-los por boreste. Enquanto me aproximava um pouco mais da entrada da barra, bem devagar.... TUM! Outro encalhe!! Sem baixar nenhuma vela, com vento bastante fraco, dei máquina à ré e verifiquei que o barco não se movia, pois o fundo era de lodo. Na carta náutica, verifiquei que, ao desviar da galhada e julgar a entrada da barra em lugar errado, saí um pouco do canal, mas o suficiente para encalhar novamente. Acelerando o motor, ajudando com movimentos no leme, consegui aproar o barco novamente para o canal e caçar bem os panos, para adernar o barco o máximo possível, reduzindo assim o calado. Neste movimento, conseguimos navegar novamente... UFA!

Guará amarrado provisoriamente aos palanques em São Lourenço do Sul/RS

    Seguimos em frente, adentrando o Arroio São Gonçalo, orgulhosos e estupefatos pela sobrevivência intacta à dois perigosos encalhes. Ao passo em que procurávamos uma vaga (que não encontramos, pois o clube estava cheio pelos veleiros que correriam as regatas das classes oceânicas nos dias seguintes), apreciávamos a beleza ímpar daquele belo e alegre canal, em um feriado de carnaval em pleno verão gaúcho. Amarrei então o barco a dois pilares, um à popa e outro à meia-nau, peguei um licor, algumas rodelas do salame do Seu Jorge e fiquei ali, admirando o entardecer. Sem desembarcar, preparei um pequeno jantar e descansei ali mesmo, deixando para apenas no dia seguinte dar entrada no clube.

Celebrando a chegada. Tim-tim!

19 a 21/02/2023 - de domingo à terça-feira:

    Nos dias seguintes, permanecemos atracados ao mesmo local, aguardando pela disponibilidade de uma vaga. Para desembarcar, utilizei o novo bote de apoio do Guará, construído em polietileno, com banquinho e um par de remos de voga (remado com as costas para a proa). Enquanto estivemos ali, usava o bote também para ir à cidade, na outra margem do arroio.

Veleiro no Arroio São Lourenço

    Do domingo e na segunda ocorreram as provas das regatas oceânicas alusivas ao "56º Encontro de Vela de São Lourenço do Sul". Um evento brilhante, dos mais incríveis que já tive a oportunidade de presenciar. Digo "brilhante", porque o Iate Clube possui também vagas para camping e motor-homes, de forma que os participantes das regatas permanecem no local ao longo de todos os dias do evento, com celebrações em ritmo de carnaval, em grande integração e grande festividade. Não à toa, o evento já encontra-se em sua 56ª edição, realizado anualmente, sem nenhuma falha. Uma grande festa náutica, abrilhantada pelos veleiros, seus comandantes e tripulações, frequentemente familiares. Por estar em solitário, sem tripulação, e considerar que os barcos já inscritos já contavam com suas tripulações organizadas, considerei melhor não participar das regatas, destinando meu tempo à conhecer a cidade, apreciar as festividades e arrumar o barco, que ficaria ali esperando até o próximo trecho. E assim, entre marchinhas de carnaval, churrascos e camaradagem, permanecemos ali aguardando a liberação de uma vaga segura para o veleiro Guará.

Evento de premiação. Parabéns aos velejadores!


Canoa furada!?

Presença nacional!

22/02/2023 - quarta-feira:

    Acordei cedinho e fui até o portão externo do clube aguardar o motorista que me levaria até o ponto de encontro com minha carona de volta até Governador Celso Ramos. O Guará ficou aos cuidados do Sidnei, conhecido pelos amigos como "Sid", que mora ali mesmo com sua esposa a bordo de um catamarã e trabalha tomando conta dos barcos, realizando reparos gerais. Um grande sujeito, destes que a gente agradece por encontrar pelo caminho... né, Guará!? :)


Vizinho


A seguir, cenas dos próximos capítulos...

Para ouvir o podcast narrado pelo comandante, clique aqui

Obrigado pela leitura. Até a próxima!

*batimetria: ciência do mensuramento da profundidade das massas de água (oceanos, mares, lagos etc.) para determinação da topografia do seu leito.

domingo, 26 de março de 2023

E assim é:

 


às vezes, navegamos; outras vezes, costuramos nossos panos.

Floripa - Santa Catarina - Brasil

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

O Veleiro

"O veleiro é de madeira, fibra, vento e mar. É também de espuma branca de água salgada cingindo o casco. Seu balanço me embala tal colo de mãe. Segue firme o veleiro. O mar não é singular, eles são muito: o mar estreito, o mar revolto, a calmaria, o mar profundo, o mar que vira mangue, que vira rio e vai dar na praia. Tudo cabe no mar e neste veleiro: o amor mais profundo e solidão extrema. No mar há destroços e muitos recomeços. Segue o veleiro, ao sabor dos ventos rumo ao porto desconhecido, tal como a vida, tal como o amor."

Mônica Carvalho, para @orca.sailing

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Relato de uma "Campereada"

Caro Diário de Bordo,

Hoje vamos relatar uma experiência muito legal e inesperada.

Ao longo destes anos, nos acostumamos a viajar sozinhos. Tomar um avião, um ônibus ou um carro, para chegar até o barco e navegarmos solitários para alguma ancoragem também solitária, na maioria das vezes. Até aqui, não havíamos nos juntado a nenhum outro barco ou flotilha, embora esta fosse uma vontade ainda não fomentada.

Neste espírito, depois de alguns anos sem ter que ir muito longe para embarcar, partimos. Primeiro, compramos um novo bote de apoio para o Guará, pois o inflável anterior abriu em quase todas as colas. Cogitamos reformá-lo, mas decidimos experimentar um bote rígido, feito em polietileno, mais durável e resistente (embora mais pesado).

Depois de ir à fábrica buscar o novo "integrante da família", instalamos um rack sobre o teto do carro e o amarramos ali. Ufa... que medo dele se soltar em algum quilômetro dos 750 que nos separavam do nosso veleiro. Confesso que estas experiências me preocupam. Mas como precisaríamos do pequeno bote para uma navegação mais segura em família, o amarramos bem e partimos, antes do nascer do sol do dia 03/01/2023, da nossa "base" no Canto dos Ganchos, em Governador Celso Ramos/SC.

Barco ou carro!? Se virar, navega!

Foi uma viagem bastante tranquila. Em alguns momentos, o vento apertava em sentido contrário e o comandante motorista aliviava o pé do acelerador, para não sair voando com o barco. Paramos na cidade de Sombrio/SC, onde fica uma bela gruta, onde oramos pedindo proteção para as nossas viagens por terra e por águas gaúchas.

Oração na gruta Furnas em Sombrio/SC

A viagem prosseguiu tranquila até os 100km finais, mais ou menos. Lá perto de Pelotas/RS, nosso destino, o vento apertou e, nos trechos não duplicados, grandes caminhões deslocavam perigosas massas de ar ascendentes que tentavam descolar o bote do teto do carro. Nestas ocasiões, diminuíamos ainda mais a velocidade, abrindo ambos os vidros, para que o vento passasse por dentro do carro e não por cima. Sim, estávamos velejando, administrando rajadas, em plena estrada! Até que chegamos ao Iate Clube de Pelotas, antes do pôr do sol, depois de um grande dia pelas estradas, entre orações e galinhas com farofa degustadas sob ninhos de periquitos à sombra de caminhões.

Entardecer no Iate Clube Pelotas

Os dias 04 e 05/01, respectivamente, estavam destinados à preparação do barco. Compras de provisões, revisão de equipamentos, teste do novo bote de apoio, integração com os velejadores do clube, entre outras tantas atividades que surgem quando estamos a bordo.
Logo na terça (03) quando chegamos, encontramos o Jorge, do trawler Casulo, que havia nos resgatado quando rumávamos a Porto Alegre e, por motivo de pane mecânica, sem vento nenhum, nos obrigamos a fundear na praia do Laranjal em Pelotas. Enquanto embarcava o rancho no Casulo, Jorge nos apresentou sua almiranta, a Vera, um amor em pessoa. Eles nos disseram que estariam zarpando no dia seguinte, quarta (04), juntamente com um grupo de outros 07 barcos, rumo ao Arroio Pavão, aproximadamente à meio caminho da derrota que havíamos traçado rumo à Ilha Grande, no Canal de São Gonçalo. Mui simpaticamente, nos convidaram a nos reunirmos a eles no "acampamento", se assim desejássemos. Agradecemos, mas não confirmamos, deixando então a decisão ao acaso.

O Canal de São Gonçalo e seus apêndices

Zarpamos na sexta-feira (06) às 06:30h rumo ao Arroio Pavão, com combustível, provisões e tempo para esticarmos até a Ilha Grande, se assim desejássemos. Teríamos pelo caminho algumas novidades: duas pontes sobre o Canal de São Gonçalo, sendo uma uma ferroviária (com vão central móvel operado por máquina), uma rodoviária (com vão central fixo suficiente para a passagem do mastro do nosso veleiro) e uma eclusa (espécie de elevador hidráulico utilizado por embarcações para transpor barragens). A ponte móvel opera diariamente das 8h às 18h, já a eclusa em três horários: às 9h, às 14h e às 17h.

O tempo de navegação entre a ponte férrea e a eclusa seria de aproximadamente 50min à nossa velocidade, de modo que precisaríamos cruzar a ponte bem próximo ao horário de início da operação. De acordo com o plano de navegação, teríamos vento (e consequente corrente) a favor em direção à ponte, de modo que chegar antes do horário seria um empecilho inconveniente (já que não teríamos freio!). Assim, saímos um pouco mais cedo, para não atrasar a passagem pela eclusa, porém controlando a velocidade, para não chegar cedo à ponte. Sendo assim, já próximos a ela, reduzimos máquina e fomos seguindo até chegarmos próximos à ponte às 8:00h. Chegando lá, chamamos no rádio uma vez, e nada. Duas vezes e... nada. Na terceira vez, responde o operador, dizendo que já havia nos avistado e que estava a caminho. Eram 08:05h! O "danado" (adjetivo carinhoso dirigido a quem inadvertidamente nos causa algum contratempo) devia estar com um rádio nas mãos, se atrasou e nos levou a dar duas voltas em 360 graus, para gastar tempo. Para quem viu, certamente foi um espetáculo a parte, ver um veleiro desfilando em círculos em pleno amanhecer, tal qual uma ave macho galanteando a fêmea para o acasalamento.

O vão central da ponte férrea antiga então se abre, lentamente, exclusivamente para nossa passagem, sem cobrar pedágio. Nos sentimos honrados e muito gratos, ao passo em que tentávamos adivinhar, olhando o tope do mastro, se já teríamos altura suficiente para nossa passagem. Redimiu-se então o operador, dando-nos pelo rádio a aguardada permissão, ao passo em que nos desejava uma ótima navegação. A almiranta agradece em retorno pelo rádio, muito feliz e simpática ao solícito "dorminhoco".

Passagem pela ponte férrea

Passados aproximadamente 45 minutos, alcançamos a eclusa. Lá deve-se ter cuidado para não atracar o barco entre o vento e a parede, para não danificar o costado. Pela direção do vento, calculamos que deveríamos amarrar o barco por boreste, mas na prática, precisamos amarrá-lo por bombordo. Que correria! Foi aquela confusão, trocar cabos e defensas tão rápido. Perdemos o ponto de amarração. No apuro, fomos "socorridos" por um barco pesqueiro que nos ofereceu gentilmente o costado para amarrarmos a contrabordo. Tudo safo.

Atracação na eclusa

O Canal de São Gonçalo é assim chamado por não ser um rio, uma vez que não possui nascente. Ele interliga naturalmente a Lagoa dos Patos à Lagoa Mirim e possui alguns afluentes, como o Rio Piratini e o Arroio Pavão, por exemplo. Em sua extensão, foi construída uma barragem para impedir que a água salgada do mar, por meio da Lagoa dos Patos, salgue os arrozais ao longo do Canal, além de possibilitar a captação de água potável para consumo humano. Sem dúvida, uma antiga e grande obra de engenharia.

Após uma bela navegada sobre a água doce do São Gonçalo, deslizando ao sabor do vento e totalmente à motor (pois precisávamos testar bem a máquina após a última manutenção) chegamos à "esquina" do Canal de São Gonçalo com o Arroio Pavão. Bem ali, avistamos a animada flotilha e seu acampamento, com seis barcos atracados com a proa à altura do barranco. Jamais havíamos visto uma atracação como aquela: os barcos são amarrados de proa às árvores ou arbustos e à contrabordo uns dos outros. O primeiro e o último barcos lançam longas espias também aos barrancos, mantendo todo o conjunto "estaqueado" e assim imóvel. Alguns barcos oferecem passagem aos demais, com pranchas colocadas em suas proas, conforme o desenho do barranco. Nosso veleiro, por orientação do amigo Jorge, atracou à bombordo do Casulo e a boreste do Vikings, do Seu Pedro, que com seus 70 anos de acampamentos e navegações, apelidou-nos carinhosamente de "Viajantes". Nosso embarque e desembarque foi então feito pelo Casulo, pois com nossa quilha de 1,65m, não alcançamos o barranco.

O Veleiro Guará, único entre os demais barcos e também entre os menores, chamou a atenção de todos que, admirados, queriam saber como havíamos chegado ali com aquele "barquinho". O feito rendeu algumas boas conversas ao surgir da bela lua cheia que nos fez brilhante companhia até a segunda-feira (09), quando desatracamos em uma flotilha de quatro barcos para o retorno a Pelotas.

A flotilha a contrabordo


Xiruzada campeira!


Isadora aprendendo a fazer crochê com a amiga Márcia


Tradicional fogo de chão. Outrora amarravam-se cavalos...


Um espetáculo a parte...

Era para ser apenas uma visitinha ao acampamento, para conhecermos os amigos navegantes e depois seguirmos para o destino planejado mais adiante, a Ilha Grande. Mas, às vezes, somos surpreendidos pela correnteza. Conhecemos pessoas maravilhosas, que nos aceitaram de coração aberto. Nós saímos só para navegar, e voltamos com amigos incríveis, que nos ensinaram sobre culinária, crochê, pesca, navegação. Sobre a vida e tantas coisas mais... decidimos ficar e aproveitar cada momento com eles. A Ilha Grande ficou para uma próxima. Nosso tesouro foi encontrado antes.

A navegação de retorno foi um pouco mais difícil, como esperado. Navegamos a motor e velejamos com ajuda da genoa em alguns trechos, vindo logo atrás do Vikings. Atracamos à margem e nos amarramos a contrabordo um pouco antes da eclusa para um delicioso almoço preparado pelo amigo Bicudo, no Casulo. Dali em diante, forte vento contra. Na eclusa, tivemos um leve encalhe à jusante, mas saímos dando máquinas. O barco Vikings teve um ligeiro problema de sobreaquecimento e nos amarramos à margem (ficamos bons nisto :) para oferecer apoio, mas o Seu Pedro, com enorme sabedoria, descobriu o problema com entupimento na mufla do escapamento e safou sozinho.

Chegamos por volta das 17:00h, bem na hora da reunião de trabalho online da almiranta, que já havia começado a bordo. Mal atracamos ao pier do clube, ela saltou em terra e foi buscar a rede WiFi. Cousas da modernidade que, felizmente, não nos impedem de navegar.

À noite, jogamos Trilha a bordo, após o jantar. Ganhamos este pequeno tabuleiro do simpático casal do veleiro norueguês Petit Pilchard, que conhecemos em Rio Grande. Eles estavam a caminho de Punta del Este no Uruguay, destino final de sua viagem. Lá, acabaram vendendo o barco e começaram outra empreitada a bordo de um veleiro maior.

Isa e Mamãe aprendendo a jogar Trilha

Vencida a primeira etapa do nosso cronograma, postergamos a segunda para uma próxima oportunidade. Seria o prosseguimento da viagem a Porto Alegre, com passagens por São Lourenço do Sul e Tapes, que não ocorreu por motivo de trabalho em terra: a almiranta, então aprovada em uma etapa de concurso público, precisara se apresentar para a seguinte. Motivo de grande celebração a bordo!

Na viagem de retorno, ainda deu para visitarmos nossa querida bisa Leda, na casa dos nossos tios Paulo e Andréa em Criciuma/SC. Ficamos muito felizes em vê-la alegre e bem cuidada, cheia de amor e carinho.

Amor de Quatro Gerações

E assim, seguimos nossa viagem, com deliciosos atrasos em nosso cronograma.

Até breve! Quem sabe nos encontramos em algum acampamento por aí :)

Abraços carinhosos da tripulação do Veleiro Guará: Thom, Rita, Isadora, familiares e amigos.

Bons Ventos Sempre!