Dia 4 - Saco do Mamanguá
Amanhecemos no fundo do Saco do Mamanguá. Levantei primeiro, olhei pela vigia e vi que, perto de nós, as águas menos abrigadas estavam encrespadas. Percebi que seria um ótimo dia de treino, antes de partirmos pra travessia até a Ilha Grande.
Tomamos café da manhã, içamos toda a vela grande e subimos a âncora. Pouco navegamos a motor, e logo o sudoeste começou a encher a vela, de vento em popa. Desligamos o motor e a brincadeira começou: o Guará voou na água, e lembrei do lindo pássaro que deu nome ao Barco: uma ave linda, hoje bastante rara, de penas vermelhas, típica das terras tupiniquins na época em que fomos "descobertos".
Subimos o Saco do Mamanguá em poucos minutos, com o Guará literalmente voando baixo. Navegamos em popa, través e orça (contra o vento). Em uma das manobras, quando a vela grande panejou, três
slugs (peças plásticas deslizantes que unem a vela ao mastro) quebraram. Um bom problema a ser resolvido.
Pelo nosso planejamento, hoje seria dia de reabastecer o Guará com gelo e água doce, se necessário. Ancoramos perto do "Pão de Açucar", um morro muito parecido com o de mesmo nome, que fica no Rio de Janeiro. Bem perto também do restaurante do Seu Orlando, um pescador muito gentil. Como não gosto de ancorar muito perto de outros barcos, lançamos âncora um pouco mais distante dos outros barcos, e relativamente próximo à costa de pedras.
Eu e meu pai, o Vovô Vande, fomos remando até o restaurante, contra o vento e contra a maré, porque o motor do bote teimou em não funcionar. Como estava com um pequeno vazamento, também levamos a bomba de encher junto. As meninas ficaram no barco. Conhecemos então o Seu Orlando, pescador, que nos vendeu um pouco do seu gelo, suficiente até o próximo reabastecimento. Não precisamos de água, porque a tripulação é muito econômica. O banho da Isadora é de chaleira, na pia; o da mamãe é de água quente com regador, no banheiro; o dos meninos é no mar, com um pouquinho de água doce pra tirar o sal do corpo.
Eu havia lido no Roteiro da Marinha sobre o vento sudoeste no Saco do Mamanguá. É um vento que quando sopra costuma ser forte, pois desce o morro e "encana" entre os fiordes. Seu Orlando perguntou, com toda delicadeza: "-vocês vão dormir aqui? Estou perguntando, porque dizem, DIZEM, que hoje vai soprar o sudoeste. É melhor dormir lá no fundo, porque pra quem não está muito acostumado o mar mexido incomoda."
Fiquei então com a primeira grande decisão a ser tomada: dormir no mesmo lugar em que já havíamos dormido, em rumo contrário ao planejado, ou enfrentar o "temível sudoeste do Mamanguá". Após um pouco de dúvida, sanada pelo carinhoso chorinho que anunciava a hora do banho que precedia o mamá e o sono dos anjos, decidi que enfrentaríamos.
Não foi fácil. Ainda não conhecia suficientemente o barco, pra passar a noite em uma ventania. E que ventania. Na medida em que o vento aumentava, uivando, as "quarteladas de amarras" do cabo da âncora iam pra água. É assim: uma boa ancoragem, com vento forte, precisa de pelo menos 8x a profundidade de quantidade de cabo. Soltei 10x, e ainda assim o Guará "tremia" nas rajadas. Eu e o Vovô Vande fizemos turnos de vigilância para verificar nossa posição durante a noite, para saber se o barco não estava garrando (arrastando âncora). A ventania foi a noite toda, e o Guará não saiu do lugar nem meio metro. Recebi um certificado de ancoragem. E isto foi muito importante, pois nem sempre os melhores ancoradouros estão disponíveis, e muitas vezes é preciso ancorar em condições adversas. Uma grande aprendizagem.
Ah, a Isadora!? Dormiu como um anjinho, ao som do vento, das ondas batendo no casco e dos cabos batendo no mastro. É marinheira. E de primeira!!!
A Isadora com a mamãe no vento sudoeste do Mamanguá