segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Dia 5 - Angra dos Reis

"Diário Querido,
Foi como planejado: sair bem cedinho da Ilha das Couves, em Ubatuba/SP, com destino à Angra dos Reis/RJ.
As meninas dormiam profundamente. Já estamos acostumados a acordar de madrugada para viajar. E a parte mais chata, é sempre acordar os outros. Ter que dizer no pé do ouvido "-ei, vamos, está na hora...", e acompanhar o esforço do outro pra sair da cama dá uma certa dó.
Desta vez foi diferente. Aquela brisa leve, daquele corredor de vento formado da entrada da cabine até a gaiúta da cozinha, disse no meu ouvido: "-você não tem que ligar o motor, vai fazer barulho. Vai assim, quietinho, com casa e tudo desta vez". Eu ouvi a brisa, esquentei uma água, passei um café, peguei um pacote de bolacha, uma banana, acendi as luzes de navegação e fui lá fora. Folguei a escota da vela grande, balancei a retranca de um lado para outro. Subi a vela devagarinho, amarrei a adriça no cunho e soltei o amantilho. Ela começou a panejar, convidando o barco ao movimento. Fui até a proa, comecei a puxar as amarras com alguma velocidade. Um, dois, três quartéis, e pesou. Puxei com mais força e o ferro subiu com alguma facilidade. Já estava então mais perto das piscinas naturais que, agora sem enxergar, havia admirado no dia anterior. Corri para o cockpit, cacei a escota e o barco começou a ganhar velocidade. Dei um bordo rápido, perfeito e, de través, o barco começou a se afastar da praia. Sorri, aliviado. Olhei pra dentro da cabine, ouvindo o barulhinho da espuma da água cortada pelo leme. As meninas ainda dormiam. Em contravento, fomos bordejando, até que toda a tripulação estivesse acordada. Em poucas horas, estaríamos no Estado do Rio de Janeiro..."

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Preparando o Barquinho

Este casal criativo bolou ótimas soluções em seu barquinho para uma grande travessia.
Vale a pena conferir!



Velejando no Lago Paranoá

Queridos(as),

Vejam uma série de pequenos vídeos sem edição, gravados durante um "cruzeiro" do veleiro Isadora pelo lago Paranoá em Brasília.

Muito bons ventos!


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Enquanto isso...

...a regata comemorativa do Dia do Marinheiro acontecia no Clube Naval, em Brasília.
No sábado, o veleiro Isadora estava na raia.
No domingo, a tripulação participou alegre a bordo do veleiro Mucuripe. Família + Amigos + Barco  =  :-)

O capitão "Mucuripe", a almiranta Fabiane e sua tripulação.
ps: eu tinha acabado de sentar em cima do pezinho da Isadora :-(

Veleiros

 Prontos para zarpar!

O capitão "Mucuripe" é um cara muito legal!

A baixinha puxava os cabos para participar.

 Montando a primeira bóia

Ciclone

Querido(a) Leitor(a),

Este final de semana foi duro no litoral sul do Brasil, área metereológica Charlie. Na madrugada de domingo, um ciclone causou vários danos, principalmente em barcos, Em Florianópolis, quando a área vermelha  passou pela Ilha da Magia, muitos barcos se soltaram e foram parar na praia. Graças a Deus, o ciclone já está indo embora e causou apenas danos materiais.
Entrentar um destes lá no mar não deve ser nada fácil. Mas, como diz o ditado, "o maior perigo no mar é a terra".



"Fim de semana triste para muitos amigos velejadores..."

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dia 4 - Ilha das Couves

"Taí um lugar que vale a pena conhecer: a Ilha das Couves, em Ubatuba/SP. E bem acessível.
Para quem vai de carro, é só ir até Picinguaba, na Rio-Santos, e alugar um taxi-boat até a ilha. Você vai achar que chegou no paraíso, e de fato, chegou. Praia calminha, areia branquinha, Mata Atlântica nativa... um lindo lugar para passar o dia com a família.
Bem, mas... voltando ao mar, já que estamos nele - rs. Passamos o dia no vilarejo de Picinguaba. O bom de viajar é chegar nos lugares, e poder se dedicar a eles, pelo menos um pouquinho. E este vilarejo de pescadores é um lugar desses, pra se viver, ainda que seja por um dia só.
A mamãe acordou com vontade de fazer faxina no barco. Para deixá-la mais à vontade, embarquei com a capitãzinha no bote e fomos até a praia. Ela adora o bote: brummm... brummmm... bote... ela diz, apontando. A velejadorazinha também adora um motor - rsrs.
Desembarcamos na praia e fomos caminhar. O dia estava nublado, fechado, e o pequeno vilarejo bem vazio. Fomos atrás de encomendar um feijãozinho pra Isadora em um dos restaurantes. Chegamos em um, fiz a encomenda e, enquanto era preparado, fomos caminhar. A filhinha da dona, uma moreninha muito querida de uns 6 anos, se encantou com a Isadora. Levava pra lá e pra cá, carregando no colo. Enquanto isso, eu conversava com a mãe dela, esposa de um pescador que tinha saído para o mar. Descrevo abaixo um trecho do diálogo:
-Vocês estão hospedados aqui? - perguntou a senhora.
- Não, estamos no barco. Chegamos ontem.
- Qual barco?
- Aquele lá, pequenininho, ancorado mais pra fora.
- Puxa, você deixou longe...
- Pois é, estava meio congestionado ali nas poitas. E não gosto de pegar qualquer uma, pois o dono pode não gostar. Mas esta noite esta mesmo bem mexido.
- Olha, aquela ali é do meu marido - disse a senhora, apontando para uma poita bem abrigada. Se você quiser, pode usar esta noite.
- Puxa, muito obrigado! Mas penso em sair, em dormir na Ilha das Couves.
- Lá na ilha!? Não vai não, moço... você viu a ressaca lá no sul? Virou barco e tudo. É muito perigoso. Fique aqui, é mais pertinho, se precisarem de algo estamos aqui. Esse mar é perigoso.
- Tá bom, vou pensar. Agradeço muito - disse eu.
Aí a gente vê o respeito das pessoas do mar, pelo mar. Eu também o respeito muito, por isso sempre vejo a previsão do tempo. E continuaria tranquilo nos próximos dias, apesar da terrível ressaca que assolou a costa do Rio Grande do Sul na noite anterior. Por isso, decidi partir. Sabia que a Ilha das Couves nos proporcionaria uma noite de sono muito mais tranquila do que ali.
Peguei o feijãozinho, quentinho e cheiroso, fui atrás da Isadora (que a estas horas já estava quase se enfiando embaixo do restaurante com a sua nova amiguinha) e nos despedimos.
- Aonde vão? - Perguntou a nova amiguinha.
- Vamos voltar para o barco - respondi.
- Qual barco?
- Aquele lá - disse apontando para o Guará
- Aquele pequenininho!?!?
- Sim, aquele. De perto até que não é tããão pequenininho assim - respondi rindo.
- Mas... como vocês vão chegar até lá?
- Vamos pegar o outro barquinho que está na praia.
- Ahhh tá... - disse ela - Tchauzinho, Isadora!
E voltamos "pra casa", pra almoçar. A Isa, o feijãozinho e eu. Mais um tchauzinho para os nossos amigos franceses (suponho), e entramos para almoçar.
Depois do almoço, enquanto a pequena e a mamãe cochilavam mamando na cabine de proa, subi o ferro, abri a genoa e saímos, lentamente, aproveitando a brisa agradável que soprava de leste. Fomos velejando assim, até a Ilha das Couves. Ancoramos, fomos até a praia, nadamos naquele paraíso tropical e voltamos para comer pipoca.
Como esperado, dormimos abençoadamente bem. O dia seguinte prometia..."

 Grandes amigos

 Explorando o vilarejo. Roots total!

A navegadora, o seu barquinho e o mar.

 O restaurante que visitamos por terra, no ano passado. "Um dia, nós vamos vir de barco aqui" - lembro de ter dito...

Amizade...

A vida segue a bordo, enquanto...

...o barquinho vai, suave e silencioso, embalado pelo vento. À nossa proa, o abrigo da próxima noite.

Hummmm... pipoca estourada na panela. Que delícia!!!

Waypoint: 23º25,292'S  044º51,453'W
Data: 18/10/2016
Distância percorrida: 3MN
Tempo estimado de viagem: 0:45h
Jantar: arroz, feijão e macarrão com molho de tomate

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dia 3 - Da Ilha Anchieta à Enseada de Picinguaba - Ubatuba/SP

"Diário,
Neste dia a navegação foi um pouco mais longa. A cada vez que vamos, procuramos tornar o processo de ambientação ao mar o mais prazeroso possível: nada de muita distância da terra (e o medo de esquecer alguma coisa-rs), nada de ancoradouros muito mexidos para dormir, nada de longas distâncias. Em resumo... é uma vadiagem mesmo. Como tem que ser. Agradável, prazerosa, tranquila e feliz vadiagem. Sempre que possível, é assim.
Mas... quando é hora de trabalhar, todo mundo pega junto. A Isadora cuida dos peixes, a Rita cuida da Isadora, ajuda no leme e na faina a bordo; eu faço a navegação, timoneio, cuido da Isadora, faço a faina a bordo, e por aí vai. Temos nossa rotina, que procuramos levar da forma mais parecida com a nossa rotina em terra, para que a Isadora não estranhe muito. Os horários de alimentação, do banho e de dormir procuramos manter com certo rigor. Por isso, planejamos nossos roteiros de acordo com a nossa pequena capitã.
Acordamos relativamente cedo, tomamos um bom café da manhã com capuccino, pão, manteiga, mortadela e fruta, e vamos ao trabalho! Arrumar o convés, guardar tudo o que estiver solto na cabine, içar a vela principal, verificar o motor, ligá-lo, suspender o ferro e partir.
A travessia da Enseada de Ubatuba foi tranquila e muito agradável. O mar estava calmo e o vento fraco e contrário nos levaram a motorar durante um tempo. Algumas ondulações maiores e... mareamos. Primeiro a Rita, depois eu. Pura empatia. A Isadora, firme, observava tudo e alternava entre mamadas e brincadeiras, presa em sua cadeirinha de alimentação que, por sua vez, ficava presa ao suporte do dog-house.
Como estamos sem piloto automático (pois a Thinker Bell deixou de funcionar misteriosamente) desligamos o motor para almoçar tranquilamente, todos juntos sobre o azul do mar, no leve balanço das ondas e das velas folgadas.
Chegamos à Enseada de Picinguaba no início da tarde, ancorando um pouco mais afastados da praia e longe da parte mais abrigada, que estava bem ocupada por barcos de pesca, ao lado de um veleiro de aço, de uns 40 pés, um tanto mau conservado, habitado por um casal. Chamou-nos muita atenção sua bandeira francesa. De pronto, todos cumprimentamos de longe nossos novos vizinhos, que ficaram encantados com a Isadora mandando seus sorrisos, beijinhos e tchauzinhos. Foi um sentimento de muita alegria, e pensei... "puxa, estamos mesmo dando a volta ao mundo. Ainda não saímos, mas isso aqui, é muito próximo do que vamos viver lá fora". Fiquei muito feliz e abri uma cervejinha para comemorar a chegada, ainda bem gelada pelo gelo que ainda resistia na caixa.
Embarcamos no bote de apoio e fomos à praia, onde havia um restaurante. Era quase hora do jantar. Arroz, peixe, feijão e pirão foi o cardápio, devorado pela tripulação. Difícil foi manter a baixinha na cadeira depois que ela viu a pipi, o miau e o au-au.
Voltamos para o barco, tomamos banho, acompanhamos o entardecer e fomos dormir. Foi uma noite difícil, pois à noite as ondulações aumentaram e, apesar de relativamente bem abrigada, a praia arrebenta, e as marolas às vezes atravessavam o barco e o faziam balançar bastante. Alguns objetos caíram no chão enquanto a Isadora dormia sem parar, deslizando de um lado para outro em sua deliciosa caminha na proa."

A capitã e seu charmoso chapeuzinho

De olho nas lajes!

Linda barriguinha, timoneira! Esse vento... rsrs

A derrota do terceiro dia


Waypoint: 23º22,685'S  044º50,409'W
Data: 17/10/2016
Distância percorrida: 15,7MN
Tempo estimado de viagem: 3:55h
Jantar: em terra, na praia de Picinguaba (arroz, feijão, pirão e peixe frito)





quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Outro parênteses...

Estréia hoje!

 


Um parênteses


É que hoje, na hora do almoço, fui ver como estava minha goiabeira do cerrado...
em 15.7474ºS  047.8623ºW

Dia 2 - Soltando as Amarras

"Querido Diário.
"Soltar as amarras", é sempre um momento de vibração e ansiedade. Não é à toa que esta expressão é muito utilizada no dia-a-dia das pessoas. Eu lembro de quando a usava, mesmo sem ter uma relação com o mar. Nem entendia o que significava, mas dizia, como uma forma de expressar o sentimento de liberdade de algo que estava me prendendo a alguma coisa, ou situação.
Hoje, eu pronuncio com mais respeito - rs. "Soltar amarras" é algo que requer algum preparo. E, ao contrário do que pensava antes, que estaria deixando pra trás de vez alguma situação ou problema, virando a página, hoje sei que para "soltar amarras" é preciso não só estar preparado, mas disposto a levar a bagagem (e não deixá-la para trás). Esta bagagem, se refere a tudo o que precisamos levar: nosso planejamento, nossa boa vontade, nossa expectativa da chegada e, sobretudo, os recursos que precisamos ter a bordo. Água. Comida. Energia. Remédios. Coisas que, aqui na terra, encontramos na esquina. Mas lá, no mar, não temos esquinas.
Soltamos as amarras. Desfazer o nó de uma poita, ou subir um ferro, ou desatracar, é sempre uma sentimento misturado de saudade e alegria. Saudade pelo que ficou, pelo que foi vivido, e pelo que sabíamos que estava ali, mas não foi. Alegria por todo o mar de descobertas pela frente: como estará o tempo? E o vento? E o mar? E os golfinhos, virão novamente? Onde vou chegar, largar minha âncora, estará seguro? É tanta coisa...
Mas... soltamos as amarras, com destino a outro estado. Ali, do ladinho, mas outro estado. Estaríamos viajando, de barco, neste marzão de Deus! Angra dos Reis. Um lugar lindo, dos mais lindos do mundo, que já conhecíamos um pedacinho só, de outra navegada. Um lugar de águas mais tranquilas pra Isadora. Um lugar com mais lugares dentro dele, muitos, ancoragens seguras e próximas uma da outra. O que precisamos, quando não temos muito tempo para navegar mais longe. O que precisamos, por ora.
E soltamos as amarras, em um dia lindo, ensolarado. Bem descansados, bem abastecidos, bem ansiosos. Não fomos longe. Ancoramos ali, há cerca de 40 minutos adiante em nossa derrota. na Ilha Anchieta. Esta ilha que já foi presídio, que guarda encantos e histórias de dor, nos acolheu com muito carinho em sua Praia de Fora, a do Engenho, pequenininha, com uma bica de água das mais puras que já vi. Já tinha tomado banho em terra, mas tomei de novo ali, com xampú, com sabonete, com família, com tudo. A festa que a Isadora fez quando viu aquela água, nunca mais vou esquecer. Ali dormimos, ancorados, embalados pela alegria de ver o sol se pôr no nosso novo provisório quintal. "Moramos aqui"-dissemos. Só hoje, moramos aqui."

Prainha do Engenho - Ilha Anchieta - Ubatuba/SP
Mar + areia clarinha + água doce = Sorrisos!


Relax na varanda


Ih... não tem água quente no chuveiro. Que chato, heim Isadora!?

Waypoint: 23º32,127'S  045º03,801'W
Data: 16/10/2016
Distância percorrida: 3,5MN
Tempo estimado de viagem: 50min
Jantar: arroz de carreteiro (de marinheiro - rs)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Dia 1 - O Embarque

"Amigo Diário,
O embarque foi uma experiência muito legal.
Como deveríamos passar duas semanas a bordo, embarcando em um lugar e desembarcando em outro, não dava pra ir de carro. Aliás, nossos carros são coisas engraçadas: eles nos levam aonde queremos, mas sempre temos que pegá-los de volta. Deviam inventar um carro inteligente, que fosse nos buscar sem ter que encher o saco de ninguém que precise dirigi-lo. Acho que logo a gente chega lá.
Bem, voltando ao assunto, fomos de Brasília/DF a Guarulhos/SP de avião, como de costume. Chegando lá, pegamos o primeiro ônibus até São José dos Campos/SP, onde meu querido cunhado foi nos buscar na rodoviária. Aliás, nunca fale mal de cunhado perto de mim, porque o meu é tudo de bom. Pena que minha irmã achou primeiro - rsrs.
O plano era embarcar de SJC até Ubatuba/SP de ônibus também. Mas aí o Enrique, que estava indo encontrar minha irmã em Ilhabela/SP, nos deu uma carona até Caraguatatuba/SP (eita nome difícil!), já pertinho de Ubatuba/SP. Não vou esquecer da cara de pena dele por nos deixar naquela rodoviária minúscula, com criança pequena, cheio de malas. É interessante como as pessoas ajudam pessoas com crianças e malas nos ônibus urbanos. A solidariedade humana é algo fascinante.
O ônibus nos deixou no Saco da Ribeira. Foi engraçado desembarcar na beira do asfalto e sair andando com criança e muita mala por ruas sem calçada, cheia de poças de água. Esta foi a primeira vez que eu me perguntei "o que é que eu tô fazendo aqui?"
Lá no Saco da Ribeira, a pé, mais surpresas boas: o almoço guerrerão (costela assada com acompanhamento livre) no bar do japonês, com direito a um cãozinho acompanhante e uma gentil carona do pessoal da AUMAR pra levar as compras até o pier. Mais solidariedade humana.
Dormimos ali, na poita mesmo, bem abrigados, pertinho da terra, reiniciando outra vez o processo de adaptação ao mar."

"A Isadora feliz da vida almoçando com o seu amigo au-au."

 
Enfim, embarcadas: cansadinhas e felizes

PS: uma coisa interessante sobre o nosso menu de bordo: nenhum alimento que exigisse refrigeração e sempre fresquinho: carne salgada (charque), ovos, macarrão, arroz, suco concentrado, muitos legumes e frutas. E água, claro. Isso porque, da última vez, o roteiro ficou preso a locais com abastecimento de gelo, que precisa ser reposto a cada dois dias.

"Querido Diário"

"Querido Diário.
Nas próximas páginas, vou compartilhar contigo como foi a experiência de morar a bordo por duas semanas com minha família. Não ali na poita, pertinho das facilidades da terra. Navegando, viajando, trocando de lugar a cada dia, se protegendo das intempéries do tempo, vivendo em um barquinho pequenininho, simples de tudo, sem geladeira elétrica nem água quente no chuveiro. Mas com cada quintal...
É. Não foi assim tão fácil. Houveram dificuldades, superadas com bom ânimo e paciência, recompensadas com tormentas e arco-íris."

Foto tirada do convés, durante a aproximação de uma frente fria com ventos muito fortes.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"O Velejador Magnata"

Querido(a) Leitor(a),

Eu decidi fazer este post depois de uma rápida lamentação coletiva de velejadores, inclusive eu, em um dos grupos do WhatsApp.
Dizem que quem tem barco é magnata. Acho que é por causa da mídia, que sempre mostra nas novelas pessoas ricas em barcos, ou das propagandas de jóias, ou dos craques do futebol que costumam ter enormes iates luxuosos.
Bem, vamos para o meu caso. Eu moro em Brasília, bem longe do mar, e estou com um barco no litoral sudeste do Brasil. A primeira indignação é: "nossa, um barco!? Temos que investigar as suas contas". A segunda é: "e porque não traz ele pro Lago Paranoá?".
Vamos por partes.
Com relação a primeira indignação: o Guará custa menos do que um terreno, menos ainda do que uma casa na praia. Bem menos. Mas o que pega, mesmo, é a manutenção. Aí eu concordo. Vamos aos números (mensal):
- Aluguel da poita (local) + marinheiro para tomar conta (deixar pronto pra atravessar o oceano a qualquer momento, porque estou longe e não tenho tempo): R$800,00
- Passagens aéreas pra família, ida e volta (1x por mês): R$1.000,00
- Aluguel de carro + combustível pra chegar no barco (quando não usamos ônibus): R$300,00
Total: R$2.100,00
 - Em Brasília, moramos longe do trabalho, para economizar. Isso nos dá uma economia aproximada de R$2.000,00 com moradia e mais R$300,00 com transporte, porque optamos pelo coletivo.
Total: R$2.300,00
Ou seja, basta abrir mão dos confortos na terra para viver um pouco no mar.
Vejam que estes são os nossos números. Se você morar perto do barco, ou no próprio barco, eles serão ainda menores.
Com relação à segunda indignação, tem a ver com o estilo de vida. Gosto do mar. E de saber que um bom sopro de vento pode nos levar a qualquer lugar, com casa e tudo. Somos velejadores de cruzeiro, por opção.

Viver no mar é estilo de vida.
É respeitar a natureza, é preferir as coisas simples.
É viver uma solidariedade incrível entre as pessoas.
É descobrir quanto incomoda um saco plástico.
É saber quanto vale a água.
E relembrar como é bom viver sem microondas,
porque você tem muito tempo para estourar sua pipoca...

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Você já calculou a sua emissão diária de gás carbônico?

Em um veleiro, nos preocupamos muito com a energia que consumimos, porque precisamos muito dela para chegarmos ao lugar que desejamos.
A energia motora, é do vento;
a energia elétrica, pode ser do vento, ou do sol, ou do movimento da água do mar, ou do alternador do motor auxiliar (menos desejável);
A água potável, captada de nascentes ou da chuva e armazenada em tanques;
O alimento vem da terra (racionado à bordo) e também do mar.
Temos a consciência, a todo tempo, de que isso é tudo o que precisamos para viver no mar. Nada mais, que não possa ser adquirido em troca de algum trabalho ou mesmo de escambo, para manutenção do barco e outros "caprichos", por assim dizer.
Mas... vivemos boa parte do nosso tempo em terra. Usamos veículos a combustão e descartáveis, nos lavamos com água potável, consumimos do nosso planeta amado o tempo todo. No nosso caso, em especial, precisamos utilizar avião para chegar ao barco. E temos a consciência do quanto isso pesa para o nosso planeta.
Por isso, fizemos a conta e descobrimos que o emitimos de CO2 mensalmente equivale a cerca de 200 litros de gasolina. Assim, compensamos utilizando metrô para ir ao trabalho em terra, diariamente.
Nosso próximo passo será neutralizarmos nossas emissões, com "iniciativas verdes".

fonte: http://calculadora.eccaplan.com.br

E você? Já calculou a sua emissão de CO2?


É...

...mais ou menos assim:

"Eu poderia parecer que estou te ouvindo, mas na minha cabeça estou velejando."
 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Feliz 20 de Setembro, tchê!

Pra ti, uma cuia do tamanho do mundo.

Mapa de Navios em Tempo Real

Querido Leitor(a), bom dia!

No mar, temos algumas preocupações um pouco diferentes da terra: o risco de colidir com um navio é uma delas. Esta, aliás, é uma das principais possíveis causas de desaparecimento de veleiros nestes mares pelo mundo afora.
Pode parecer estranho como, em um mar tão grande, dois barcos possam colidir navegando a poucas milhas por hora. Pois é... isso costuma acontecer quando um dos barcos, ou ambos, relaxam no comando: os capitães dos grandes navios comumente ligam o piloto automático e confiam cegamente nos alarmes dos sistemas eletrônicos; já os comandantes de pequenas embarcações, principalmente à vela, sem recursos eletrônicos, muitas vezes cansados, solitários e "invisíveis", pegam no sono e não acordam na hora programada para vigiar o horizonte.
Um dos sistemas mais avançados de navegação é o AIS - Automatic Identification System, que consiste na transmissão das informações sobre a navegação do barco (posição, velocidade e rumo), via satélite, para um servidor mundial.
Bem... se por um lado não temos equipamentos para sermos vistos, é muito fácil ver os outros, e isso já ajuda um bocado! Olha só isso:



Sobe a vela e vai!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

E a Isadora vai estudar aonde?

Esta é a primeira pergunta que, naturalmente, as pessoas fazem.
A preocupação tem muita razão de ser, pois a educação dos filhos é o primeiro dever dos pais, não é?
É sim. Por isso mesmo, muitos pais, conscientes do seu papel de educadores primeiros, tem falado no assunto: Homeschooling.
Lá fora, a prática já está mais consolidada. No Brasil, o assunto ainda é bem recente.
O procurador Henrique Cunha de Lima, do MP/RJ, escreveu um artigo bastante esclarecedor sobre o assunto:

O Homeschooling é liberado no Brasil?

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

How about... KISS :)

Na década de 60, um engenheiro da U.S. Navy, a marinha americana, concebeu o princípio K.I.S.S. (Keep It Simple, Stupid!) para a definição do escopo de um projeto qualquer, por mais complexo que seja. Ao criar a expressão, ele disse à sua equipe que o projeto de um avião de guerra deveria ser tão simples que pudesse ser reparado por um mecânico qualquer no campo de combate.

Por isso, ao fazer qualquer projeto, por mais simples ou audacioso que seja...




...lembre do beijo.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Esse Mundo Impressionante...

"Bem na nossa popa estava ancorado um miniveleiro de 21 pés cujo dono, um cabeleireiro de senhoras, navegava solitário da Inglaterra para a Austrália. Ianto era um tipo bem excêntrico, que nunca se apertava por falta de dinheio. Com suas ferramentas de trabalho, uma tesoura e um pente que levava no bolso da blusa, sempre arranjava alguma mulher para pentear."

Cabinho, no livro "Do Rio à Polinésia", narrando um trecho de sua passagem por Santa Lucia, no mar caribenho.

Partida e Chegada

"Quando observamos da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força do vento, vai ganhando o mar azul, e nos parece cada vez menor..."

Poema: Partida e Chegada

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Veleiro Isadora

15º45'09.4''S   047º51'59.0''W


Navegar é Preciso

Não importa o tamanho, nem a forma do barco.
Aí a gente começa a entender as proporções de forma natural, da estabilidade, da flutuabilidade, da reação do barco às ondas, dos efeitos da corrente e do vento, pra sosegar quando precisar surfar ondas maiores.
Quanto menor o barco, mais sentimos a água ;-)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Viajando pelo mundo em um pequeno veleiro sem cabine


É... concordo com o italiano do Crapun. A gente fica "se preparando", equipando o barco, arrumando tudo, gastando dinheiro, planejando, pensando em tudo o que pode dar errado, por anos a fio. Enquanto isso...

...este navegador decidiu partir no seu barquinho. Passou por várias dificuldades, o barco quebrou mais de uma vez no meio do caminho, sendo que na última ficou perdido em uma ilha. Logo que foi resgatado, casou-se com sua noiva. Voltou para resgatar o barco, consertou-o e continuou a circumnavegação de onde tinha parado. Concluiu sua missão. Tudo isso, sofrendo de uma doença que dependia de tratamento médico, com risco de vida pela sua interrupção.

Mas, mudando de assunto... qual é mesmo o sentido da vida!?

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Pinguim no Lago

Diário de Bordo - 23/08/2014 - Relembrando um apuro na Lagoa da Conceição

"Marinheiros,
O dia estava bonito.Vento N-NW, mais ou menos 10 nós.
Biguá sem motor.
Mesmo assim, decidi encarar e levar minha mãe pra um churrasquinho naquela pequena baía antes do Lontra.
Na vela buja, o Biguá foi na manha. Foi bonito de ver a regata que acontecia e passar perto dos barcos.
Ancoramos lá e assamos uma carne. Não tinha levado espeto, então comprei um. Não adiantou, ficou no carro. Acabamos espetando no galho verde de pitangueira. Assamos uma bananinha, aquelas tiras de costela. Muito bom.
Ficamos lá até umas 16h. Hora de voltar. O vento manteve a direção, mas aumentou para uns 15 nós. Embarcamos de volta.
Sabia que sairíamos em orça, mas com um bom ângulo. Subi a vela grande e a buja. Com aquela intensidade, o Biguá deveria ter ganho velocidade tranquilo, se a vela grande estivesse bem trimada. Mas não estava.
Quando o vento entrou, o Biguá começou a derivar rumo às pedras. Tentei ajustar, mas a vela fazia uma curva muito grande, uma barriga, que impedia o movimento a vante e o barco foi de lado. Vento e corrente empurrando pras pedras. Não deu outra, antes de bater, pulei na água, subi nas pedras e segurei no braço. Não bateu. Uma lancha abençoada que viu o apuro se aproximou devagar, jogou um cabo e rebocou. Não fosse o carinhoso marinheiro amigo, teria que chamar o socorro e ficar lá segurando o barco não sei quanto tempo. Um apuro danado.
Rebocados até a saída da pequena baía, ajustei as velas e fomos no contravento até a entrada da marina. Tinha avisado o Luciano antes de sair que estava sem motor, então antes de encalhar na entrada da marina foi rebocar.
Foi um dia maravilhoso, de muitas aprendizagens, alguns arranhões feios na sola dos pés por causa das cracas e algumas conclusões.
As avarias foram: uma parte da ferragem da alheta de bombordo se soltou e foi perdida na água, vou providenciar outra. Com o vento, já na volta, o cupilho do moitão do amantilho (cabo que segura a retranca), se soltou e ficamos sem o amantilho. Improvisei uma forma de segurar a retranca, mas será preciso prender de novo.
O motor, que não estava funcionando e nem liguei, trouxe para casa. Ontem limpei o carburador, deixei funcionando um bom tempo e sequei o carburador. O motor está na minha casa, devolverei no mês que vem, se alguém precisar antes me avise pra eu avisar a vizinha pra entregar a chave de casa. Resolvi que, quanto a ele, não tem jeito. O pessoal da marina deixa gasolina velha no carburador e sempre vai entupir as agulhas. Eu resolvi que vou comprar outro carburador e sempre que for velejar vou colocar o carburador limpo, é muito rápido, posso mostrar como se faz. Me parece o único jeito. Ou, levar o motor pra casa sempre.
Precisaremos fazer uma revisão na velaria, com o Pirão. Revisar esticadores, fuzis, estais, moitões, mordedores, cabos, enfim, dar uma geral pra deixar o barco bem ajustado. Se estivesse tudo ok, com certeza, ele não teria ido parar nas pedras (tenho que tirar o meu da reta, mas acho mesmo que é isso, rsrs).
Pretendo fazer essa revisão no fim das minhas férias, dia 18 ou 19/09, marcar com o Pirão e acompanhar o serviço. Será muito importante.
Enfim, o barco veleja bem sem motor, mas tem que estar muito bem ajustado. Ele é muito pesado e tem pouco pano pro peso que tem, essa é a impressão. Demora pra pegar velocidade e em situações difíceis deixa em apuro. Por isso, é bom ter sempre o motor funcionando.
Achei importante compartilhar a aprendizagem.
Descupem pelas avarias. Logo vai ficar tudo certo.
Agora vou passar um mertiolate.
Abraços e bons ventos! Bem bonzinhos..."

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Velejar talvez seja...

...a forma mais lenta, desconfortável, cara e sacrificada de ir de um lugar a outro, mas ela permitiu que eu fosse vendo aos poucos um Céu se unindo ao outro."

O que sobra de uma viagem

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Timoneiro de confiança


Ótimo oportunidade para aprender a velejar!

Queridos,

Divulgamos abaixo os cursos dos nossos amigos que vivem no veleiro Planckton, Fábio, Cecilia e Igor.

A melhor coisa é aprender com quem vive o que ensina. Ótima oportunidade!


Agenda – Veleiro Plancktonlogo branco p.jpg



Os cursos no inverno foram muito divertidos, e para aproveitar que a temperatura está subindo marcamos algumas novas datas para o curso
Introdução a vela de cruzeiro.

Os cursos a bordo do Planckton têm por intuito transmitir através da prática os conhecimentos adquiridos por sua tripulação, sendo assim uma excelente maneira de aprender realmente "pondo a mão na massa" ou melhor "pondo a mão nos cabos".

O valor para este semestre será de R$ 960,00 por pessoa.

O curso tem a duração de 2 dias (das 9 às 16:30 horas), o almoço a bordo está incluído. Não ofereceremos a opção de pernoite.

Datas:
 
plancton (1024x576).jpg
10 e 11 de setembro; 15 e 16 de outubro;
26 e 27 de novembro;
17 e 18 de dezembro;

Lembramos que agora os cursos acontecem em Florianópolis.

Para maiores informações acesse www.planckton.com.br

Por favor ajudem a divulgar!


Aguardamos seu contato!
 Fabio, Cecília e Igor
(48) 9608 8922
(11) 98193 3995

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

1+1=30


As últimas cinco postagens fiz pelo celular, enquanto ainda estava no barco. Tentei demonstrar, em 5 passos, a dura e trabalhosa rotina, de quem vive NO MAR e na terra. Apartamento, carro, avião, van, carro, apartamento, carro, barco, carro, apartamento, carro, van, avião, carro, apartamento, nesta ordem. Uma vez por mês, às vezes duas, de maneira quase sistemática, moramos fisicamente à bordo. Nos outros dias, navegamos em pensamento (às vezes parece até que as paredes do apartamento onde moramos em Brasília balançam).
1 dia bem vivido no barco + 1 noite bem dormida no camarote de popa, que pra mim é a melhor suíte do mundo, equivalem a 30 dias vividos e dormidos em terra, longe do mar.
Sempre que nos perguntam de onde viemos, quando estamos ancorados em alguma praia, a reação é certa: "-Puxa, que longe! E vão ficar quanto tempo?". É bonito de ver como as pessoas gostam de ver uma família a bordo.
São dias muito especiais, que alimentam a alma.
Em geral, os blogs falam de pessoas que moram no mar. Este, um pouco diferente, fala de alguém que ainda quer morar. Talvez só falte a coragem de deixar os compromissos da terra. Talvez ainda haja alguma missão a cumprir aqui. Talvez eu valorize demais o fato de eu ter me preparado a vida inteira para viver na terra, sem referências próximas de alguém que já tenha largado tudo para viver no mar, do mar. Não sei bem o motivo. É tanto "talvez", que eu até me perco...
Mas desta vez foi especial. Eu senti o amor pelo mar se manifestar de um jeito diferente em nós.
Eu agradeço muito à todas as pessoas que nos apoiam.
E é bom saber que, mesmo morando em um barco, a gente pode continuar indo no Mc Dia Feliz :)
Hoje não vai ter diário de bordo. Não fiz nada de diferente, além de dar duas voltas para calibrar a bússola da Thinker Bell e passar o dia sem fazer nada em uma poita na praia do Flamengo. Não me dei ao trabalho nem de subir a âncora do barco.