"Diário Querido,
Foi como planejado: sair bem cedinho da Ilha das Couves, em Ubatuba/SP, com destino à Angra dos Reis/RJ.
As meninas dormiam profundamente. Já estamos acostumados a acordar de madrugada para viajar. E a parte mais chata, é sempre acordar os outros. Ter que dizer no pé do ouvido "-ei, vamos, está na hora...", e acompanhar o esforço do outro pra sair da cama dá uma certa dó.
Desta vez foi diferente. Aquela brisa leve, daquele corredor de vento formado da entrada da cabine até a gaiúta da cozinha, disse no meu ouvido: "-você não tem que ligar o motor, vai fazer barulho. Vai assim, quietinho, com casa e tudo desta vez". Eu ouvi a brisa, esquentei uma água, passei um café, peguei um pacote de bolacha, uma banana, acendi as luzes de navegação e fui lá fora. Folguei a escota da vela grande, balancei a retranca de um lado para outro. Subi a vela devagarinho, amarrei a adriça no cunho e soltei o amantilho. Ela começou a panejar, convidando o barco ao movimento. Fui até a proa, comecei a puxar as amarras com alguma velocidade. Um, dois, três quartéis, e pesou. Puxei com mais força e o ferro subiu com alguma facilidade. Já estava então mais perto das piscinas naturais que, agora sem enxergar, havia admirado no dia anterior. Corri para o cockpit, cacei a escota e o barco começou a ganhar velocidade. Dei um bordo rápido, perfeito e, de través, o barco começou a se afastar da praia. Sorri, aliviado. Olhei pra dentro da cabine, ouvindo o barulhinho da espuma da água cortada pelo leme. As meninas ainda dormiam. Em contravento, fomos bordejando, até que toda a tripulação estivesse acordada. Em poucas horas, estaríamos no Estado do Rio de Janeiro..."
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