Digo "querido", porque gosto de tratar assim as minhas experiências. Seja doces ou salgadas, são sempre assim, queridas, pelo valor que me acrescentam. Valor que, neste caso, foi acrescentado também a uma jovem escoteira sênior.
O que vale das nossas experiências é o aprendizado. Sem julgar o certo e o errado, olhar de fora para um acontecimento e retirar, humildemente, as lições aprendidas.
Era um sábado chuvoso, com vento fresco que soprava de nordeste naquela baía sul, na Ilha de Santa Catarina. Era também dia de atividade escoteira marítima, com embarcações a vela.
Depois de separarmos os kits de cada barco, escolhemos um veleiro da classe Laser e um da classe Holder, pelas melhores condições apresentadas. Estes barcos, doados ao grupo escoteiro do mar, estão sendo, a pouco e pouco, reconduzidos à condição de navegadores, ao passo em que também os jovens escoteiros acumulam aprendizagens e experiências à vela.
Pois bem. Após as instruções de montagem, ocorridas à beira mar, identificamos que os lemes de ambos os barcos estavam em condições ruins. O do Holder, sequer encaixou nas governaduras (pinos em aço inox que sustentam o leme). O do Laser, encaixou um pouco e fixou com a trava.
Realizamos a atividade prevista próxima à praia, que se tratava em aprender em desvirar os barcos em caso de capotamento. Assim o fizemos, e todos os jovens escoteiros assimilaram e exercitaram esta importante lição, pois o Laser é um barco bastante ágil e também virador.
Feito isto e tendo observado as condições de navegabilidade e estanqueidade do veleiro, este comandante resolveu dar uma "pequena voltinha". Quem é do mar sabe que, naquelas condições, com bom vento e um veleiro na água, não sair seria um desperdício imenso. E sair sozinho seria também um desperdício de oportunizar a alguém a oportunidade de navegar. Chamei então a escoteira mais próxima e mais leve, pois o Laser é um barco para um tripulante apenas, e já não estou lá na minha melhor forma física. Fui no cockpit, a jovem na proa, zarpamos até ali. Mas chegando "ali", ao dar o bordo de retorno, o remo caiu na água (sim, levamos remos, uma propulsão auxiliar importante). A jovem perguntou se poderia ir buscar nadando e concordei, pois era apta e estava usando colete. Mas, ao tentar subir, capotamos, e foi então que nossos exercícios se tornaram realidade.
A corrente ali é muito forte, pois o local é próximo ao canal estreito que separa a ilha do continente. Veja na imagem abaixo:
Local estimado do capotamento
Ao capotar, o barco derivou com a corrente. Mantive-me próximo a ele e aguardei a chegada da senior, para que juntos, realizássemos o procedimento de desvirar e embarcar. Assim que ela chegou, assim o fizemos.
Neste momento, ao começar a orçar (velejar contra o vento) para voltar, percebi o quão desajustado estava o barco. Sem as talas na valuma e com excesso de peso da tripulação, o pequeno Laser orçava muito mal. Precisei então abrir o rumo para a margem contrária, para ganhar espaço, para então promover o bordo que nos levaria de volta à praia.
Nos afastamos bastante, avançando com grande dificuldade. Ao realizar a manobra de jaibe (mudança de bordo em 180 graus com o vento passando pela popa), o leme quebrou. Não soltou, quebrou mesmo, na governadura inferior. Sem o leme, a jovem já cansada perguntou "-e agora, o que vamos fazer?", ao que prontamente respondi: -"remamos!". Foi aí que algum desespero surgiu a bordo. Pacientemente, procurei acalmá-la, dizendo que estava tudo bem. Que poderíamos demorar para voltar, mas que isso certamente aconteceria, pois o barco estava estanque e tínhamos margens de ambos os lados. Ela, muito corajosa diante desta primeira experiência em um veleiro, procurou acalmar-se. Neste momento, percebi o quão valiosa foi até então sua formação escoteira.
Estávamos longe da margem almejada, o local de partida. Percebi que remar contra o vento e a maré seria exaustivo e infrutífero. Deixei-a então repousar, enquanto acertei a proa rumo ao destino, abri a vela e usei um dos remos como leme de fortuna. Quando o barco tentava aproar (virar de frente para o vento), pois esta é a tendência natural de qualquer boa embarcação, eu remava pelo bordo contrário e o colocava no rumo. Avançávamos lentamente, derivando para baixo. Naquele ritmo, após horas, chegaríamos em alguma praia mais abaixo do ponto de partida e buscaríamos resgate. Este era o plano, pacientemente executado, sob mensagens motivadoras de ânimo seguidas de longos silêncios.
Após alguns minutos, avistamos um veleiro utilizando motor, em rumo próximo ao nosso. Fiz sinal de ajuda, e eles nos rebocaram até o local mais próximo que puderam, já fora da intensa corrente contrária. Deixo aqui o meu sincero agradecimento ao comandante do "Mano Velho" e sua tripulação, composta por dois homens, uma mulher e uma criança a bordo. Após um bom tempo, que não sei precisar quanto (pois navegávamos rebocados com borrifos de água salgada no rosto e a vela panejando com loucura, enquanto a retranca insistia em tentar nos degolar), fomos deixados no local mais próximo possível, sob pena de encalhe do Mano Velho (possivelmente um Delta 26).
Ali, sem leme, utilizando a mesma técnica anterior, fomos deixados pelo vento em cima das pedras, já bem próximos à praia. Os escoteiros do mar, bravos em sua natureza, lançaram-se naquelas águas rasas em auxílio da cansada tripulação do pequeno veleiro, ainda não batizado.
Pedi desculpas à jovem senior e ao chefe da tropa, pela imprudência. Desculpas estas, que endosso aqui, pois nas condições do barco aquela "saidinha", por mais curta que pudesse ser, foi mais desastrosa do que o imaginado. É certo que acidentes acontecem. Mas, "quem se faz ao mar, avie-se em terra", diz o milenar ditado.
É justo dizer também que, apesar de tudo, a calma que consegui manter, devido ao preparo que tive ao longo de dez anos dedicados à vela, possivelmente tenha evitado algo pior. "-...falou que vc foi show, que sempre se mostrou calmo e paciente com ela, e se não fosse vc ela teria surtado.", foram palavras do chefe. Não restaram traumas, e isto me deixa muito feliz. Ao superarmos uma situação difícil, podemos avaliar o que ocorreu e pensar: "-puxa, eu resisti a isto. Sou muito forte." E a jovem está de parabéns pela bravura, pois me parece que assim o fez.
O mar nos deixa sempre muitas lições. Talvez por esta razão, pequenos navegadores frequentemente se tornam grandes pessoas. E eu ainda tenho muito a aprender com eles.
Um brinde às nossas experiências, sempre boas sob a ótica correta. Um brinde à solidariedade marinheira, ao "Mano Velho" e sua tripulação, aos jovens Escoteiros do Mar. Um brinde à vida.
Tim-tim !

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