domingo, 7 de agosto de 2022

Diário de Bordo - Terceiro Trecho: De Rio Grande a Pelotas

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Querido leitor(a),

Navegar é preciso. Mas, nem sempre possível, quando boa parte de nossas vidas percorre terra firme.

Era uma bela quarta-feira quando, reunidos os três (o pai e dois de seus três filhos), iniciaram viagem na catarinense Governador Celso Ramos, por terra, rumo ao porto de Rio Grande. De carro, mais uma vez, escolheram aquele caminho estreito que separa o imenso mar da enorme Lagoa dos Patos, no extremo sul do Brasil. Poucos escolhem ir por lá, pois o caminho por terra termina antes de chegar ao destino final: é preciso embarcar em uma balsa, em São José do Norte, para atravessar a barra e chegar navegando a Rio Grande, mesmo embarcado em um veículo terrestre. Foi lá que, a exatos dois anos atrás, a mesma tripulação percorreu o caminho na Kombi do Felipe, durante uma viagem incrível por alguns dos lugares mais incríveis e desconhecidos do nosso grande país. Mas isso é relato para uma outra história.

Navegando pela balsa: de São José do Norte a Rio Grande
 

Chegamos a Rio Grande ao cair do sol. Pelo avançar da hora, fomos direto à casa dos nossos tios, Flávio e Walkíria, que nos receberam com um churrasco daqueles que, por si só, valeria qualquer viagem.

A quinta-feira amanheceu ensolarada. Chegamos cedo ao Guará, para fazer render o dia. Não tínhamos nenhuma pretensão além de ver o barco e fazer uma necessária faxina, pois já se passaram dois meses desde o último desembarque, depois do trecho imbituba - Rio Grande. Abrimos bem as gaiutas, colocamos todos os colchões pra fora e começamos a preparar o barco para o próximo trecho, de Rio Grande a Porto Alegre, ou até Pelotas, caso a meteorologia e o tempo disponível para a viagem estivessem mais favoráveis. Atualizamos a previsão e vimos que a sexta-feira seria de muita chuva e vento contra; o sábado seria ainda de chuva, com a aproximação do frio trazido pelo vento sul favorável, mas para nós de difícil navegação, pois não temos roupas adequadas a esta condição. Navegaríamos bem, mas certamente congelaríamos no cockpit em algum trecho das 120 milhas náuticas (mais de 200km) que separam Rio Grande de Porto Alegre.

"Il Fratello Sole!"
 

Aproveitamos então a sexta-feira para uma revisão no motor do Guará. Com o auxílio de um mecânico, bem recomendado, trocamos todas as arruelas da linha de alimentação de combustível, desmontamos e revisamos a bomba alimentadora, verificamos o óleo lubrificante e trocamos um parafuso trincado no filtro Racor, o que separa água do óleo diesel. Na ocasião, funcionamos o motor por cerca de duas horas, sem nenhum problema constatado. Chovia muito naquele dia.

No sábado, compramos água mineral, abastecemos os tanques com água doce, abastecemos o tanque de combustível, compramos comida para a travessia e levamos ainda um galão adicional de combustível. Sempre é bom levar pelo menos um, pois em caso de contaminação do combustível no tanque, podemos contar com outro auxiliar. Atualizamos a previsão metereológica e verificamos que no domingo, dia seguinte, teríamos vento favorável pela manhã, enfraquecendo à tarde e praticamente zerando a partir da noite, durante dois dias. Para nós, uma ótima condição de navegação, apesar da ausência do vento, pois como estaria frio, teríamos maior conforto durante a navegação até Porto Alegre, que deveria ser feita totalmente a motor.

O vento ainda soprava forte naquela manhã dominical. Começamos a soltar amarras e chamamos no rádio o Yacht Club Rio Grande, aguardando auxílio para desatracar. Apesar da maré cheia, proporcionada pelo vento sul, o barco estava com sua quilha de 1,65m encravada no fundo de lama, com vento entrando pela popa, empurrando a proa contra o pier. Não se tratava de uma manobra exatamente fácil, para um comandante sem prática do local. Algo, aliás, muito comum para o viajante que, de tempo em tempo, se abriga em novo porto. Zarpamos com muita máquina atrás e muita dificuldade, ampliada quando a segunda nossa segunda âncora, então apoiada sobre o guarda-mancebo de bombordo, enroscou em um dos postes de amarração do barco. Por sorte, estourou só um esticador durante a manobra e demos uma pequena encostada no poste, arranhando a bela pintura do formoso veleiro Guará. Passado o perrengue, manobramos o barco e ganhamos o canal, despedindo-nos do acolhedor Yacht Club de Rio Grande e dos nossos amigos velejadores Robin e Sammy, do Petit Pilchard, que acabaram de atravessar o Atlântico a caminho do Uruguai. Eles nos presentearam com um pequeno jogo de Xadrez, em retribuição às nossas boas conversas na noite passada. Do mar, sem dúvida, entre os melhores encontros, figuram personagens incríveis da vida real...

Visita ao Museu Oceanográfico de Rio Grande
 

No rumo do canal em frente à cidade de Rio Grande, o comandante Thom e seu irmão e fotógrafo Felipe (o bravo marinheiro da vez), ainda se recompunham da adrenalina do zarpe quando, levemente, encalharam levemente em um banco de areia à margem da estreita passagem. Em uma rápida manobra, a pequena nau veleira desvencilhou-se do fundo, e seguiu navegando. "-Não vai ser fácil" - exclamou o marujo Felipe - concordado pelo comandante irmão.

Tão logo o vento começou a entrar pelo través do veleiro, abrimos a genoa e seguimos nosso propósito. Passamos então pela balsa que liga o porto de Rio Grande a São José do Norte, na qual havíamos embarcado de carro há três dias atrás. Foi um momento marcante, contrastar os dois pontos de vista em tão curto período. Mais uma destas mágicas que só quem navega percebe...

Um pouco mais ao norte, quando nossa atenção já concorria entre os encantos da Lagoa, as inúmeras redes de pesca, as balizas verdes e as encarnadas, nosso motor parou pela primeira vez. "Puta merda!" - esbravejou o comandante, quase com razão (porque nunca há razão para esbravejar, pois a vida é bela demais para tais distrações). Ele desceu até o motor, realizou uma sangria para remover o ar da linha de alimentação de combustível (este costuma ser o principal motivo de parada dos motores diesel) e o fez funcionar, possivelmente por pouco tempo. Subiu ao convés e içou a vela mestra, além da genoa, pois precisaria dela para navegar a panos se o motor parasse novamente, embora soubesse que não seria algo fácil naquele canal estreito que, por vezes, tomava o rumo de contravento. Sim, veleiros navegam contra o vento, mas requerem espaço para as manobras. E o mundo moderno, quando decidiu criar seus motores, otimizar os recursos pesqueiros e aumentar o tamanho de suas embarcações, passou a usar canais de navegação mais estreitos que acabam por restringir o direito natural dos nossos veleiros, de ir e vir livremente, levados só pelo vento. Hoje, muitas vezes, precisamos do motor também. E aquela era, sem dúvida, uma delas.

Pôr-do-Sol no Laranjal - Pelotas/RS
 

Minutos depois, nova parada de motor. O vento anunciava um possível retorno à origem. Seria fácil navegar de volta. Mas a decisão de ir em frente, superando desafios e, muitas vezes, pondo a prova os limites do barco e da própria tripulação, muitas vezes fala mais alto. Como aquele estudante que, uma vez matriculado na série seguinte, exita em trancar matricula e repetir o ano anterior, avaliamos as condições, fizemos um plano e decidimos prosseguir: enquanto o Felipe assumia bravamente o papel de timoneiro, guiando o barco pelo canal, o comandante assumia o papel de motorista (que, no barco, é quem cuida do motor), garantindo o menor número de paradas possível, bombeando mais combustível aos primeiros sinais de falha no motor. Decidimos ir assim até Pelotas, distante aproximadamente 20 milhas náuticas dali, para então fundear na enseada do Laranjal e avaliar as condições de seguir até Porto Alegre.

A chegada em Pelotas foi triunfal. Com o motor desligado, velas cheias e um pôr-do-sol que somente quem já esteve lá sabe qual é, adentramos a bela enseada em contravento até as proximidades do grande pier de madeira. Ancoramos ali perto, para facilitar um possível desembarque, caso fosse necessário. No dia seguinte, ficamos sabendo que o veleiro Guará tornou-se atração turística daquele lindo entardecer de domingo, pois a chegada e a ancoragem de veleiros ali parecia não ser algo muito comum, sobretudo naquela época do ano.

Ancorados, sob o frio típico daqueles rincões, nos dividimos entre o jantar e o motor. Ao som de uma boa música e ao cheiro de um delicioso macarrão, o comandante debruçou-se à limpeza do filtro Racor e revisão do motor, buscando encontrar uma possível entrada de ar, por algum lugar despercebido durante a revisão em Rio Grande. Durante os testes, o cozinheiro viu bastante água saindo pelo respiro do motor, o que indicava um sério problema. Em contato com o mecânico de Rio Grande, tivemos a notícia de que não deveríamos mais dar partida, sob pena de fundir o motor. A viagem a Porto Alegre estava oficialmente cancelada, e os esforços mudaram de rumo, passando a resolver como sairíamos dali, sem motor e sem vento, pelas próximas 48h. Sim, poderíamos aguardar, e é o que se faz nestas horas. Mas compromissos importantes nos chamavam de volta para terra. E desta vez, mais do que nunca, passamos a entender por que o encontro entre o mar e a terra, muitas vezes, causa ondas de choque lindamente barulhentas, que costumamos chamar só de "ondas" mesmo. "-Eu quero que a minha vida seja uma praia calma", lembro de ter pensado assim. E então, calmamente, com o apoio de diversos amigos em terra, que começaram a ser mobilizados pelo amigo mecânico de Rio Grande, conseguimos nosso resgate, para a manhã do dia seguinte. Nos restava então jantar, descansadamente, naquelas águas calmas, sob aquele céu avermelhado que tardava em escurecer, ao balanço de boa conversa, bom vinho e ótima comida.

 Yes, that's it!


Na manhã seguinte, recebemos chamado no rádio da barco Casulo, um potente trawler comandado pelo Sr Jorge, acompanhado pelo velejador Sergio, ambos do Iate Clube de Pelotas. Navegamos por cerca de uma hora, lembrando de nossa chegada a Rio Grande pelo Oceano Atlântico, agora saindo da Lagoa dos Patos, adentrando o Canal de São Gonçalo e dobrando a esquina do Arroio Pelotas, até chegar só no embalo ao pier de visitantes. "-Ainda não foi desta vez que o Guará conseguiu chegar sozinho ao destino." - pensou o Mestre com um sorriso bobo. Mas grato, muito grato, por mais uma oportunidade de receber o apoio de tantos amigos, em tão curto tempo. Abaixo, a carta de agradecimento escrita pela tripulação do veleiro Guará aos amigos de Pelotas/RS:

"O Veleiro Guará e sua tripulação agradecem imensamente pelo apoio dos amigos que nos auxiliaram no resgate em Pelotas, devido à pane mecânica. Embora não tenhamos alcançado o nosso destino, Porto Alegre, a dedicação dos amigos envolvidos na faina e o carinho do acolhimento nos remetem ao verdadeiro sentido da vida em nosso meio marítimo: a amizade, fundamentada no auxílio incondicional. Agradecemos ao Beto, pelo auxílio por telefone durante a emergência e pelos primeiros contatos. Ao Nonô, pelo empenho insistente em encontrar alguma embarcação para auxílio, chegando então ao Oswaldo. A este grande amigo, por todos os contatos em terra e constante comunicação conosco, até chegar ao Sérgio, que então se dispôs a zarpar solidariamente e, juntamente com o Jorge, comandante do Casulo, foram ao nosso encontro. Depois, ao Gustavo, à Liza, ao Zezinho e demais colaboradores e diretores do honroso Iate Clube de Pelotas (desculpem se esqueci alguém), que nos acolheu inquestionavelmente bem. Faltam palavras para demonstrar tamanha gratidão, amigos do mar. Muito obrigado! Um grande abraço da tripulação do Veleiro Guará. Thom (comandante), 21/07/2022.

Resgate do Veleiro Guará
 

 A segunda a noite foi mais uma vez coroada com boa conversa e um delicioso cozido de peixe regado a bom vinho, trazidos a bordo pelo excepcional apoio do nosso pai Vanderlei, sempre presente, seja pelo mar, seja por terra.

A terça feira pela manhã foi destinada à tradicional "faina de desabastecimento", que consiste em deixar o barco limpo e pronto para a próxima aventura, assim como aos trâmites administrativos junto ao clube e ao marinheiro responsável pelo nosso lar de múltiplos quintais. Caberia a ele, agora, apoiar nos encaminhamentos para a manutenção do nosso querido motor. À tarde, já estávamos novamente em rumo norte, por terra, relembrando toda a trajetória que nos colocou ali, naquele lugar incrível junto àquela  natureza de beleza ímpar, que talvez jamais conheceríamos em outra ocasião.

Aguardando a próxima aventura!
 

A vida sempre nos reserva surpresas. Algumas, evidentemente boas. Outras, surpreendentemente incríveis.

Um grande abraço da tripulação do veleiro Guará, e até o próximo trecho. Bons ventos!

Thom - comandante - em Governador Celso Ramos/SC, 7/08/2022.

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